quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ponto.com(petência)

Segundo análises atentas, o apetite voraz por ganhos imediatos está fazendo a caveira de muitos, nas nações desenvolvidas, principalmente na mais espalhafatosa, hoje presidida por um bufão sem qualquer dimensão histórica, o integral reverso das memoráveis lideranças norteamericanas. A vontade de retornar o investido no menor espaço de tempo, sem uma solidez cognitiva capaz de fazer frente às turbulências de contextos mercadológicos cada vez menos estáveis, já corroem as estratégias inovadoras de algumas áreas de alta tecnologia.
A conjuntura me lembra umas “correntes” que vez por outra anestesiam incautos que buscam levar vantagem em tudo, tal e qual aquela marca de cigarro cujo garoto-propaganda era um jogador da seleção brasileira tricampeã de 1970, no México. Uma seleção que também se desmoronou, tamanha a desfaçatez dos que dela se utilizaram travestidos de Ali-Babá, os demais quarenta não sendo de difícil identificação pela CPI do Congresso Nacional. E o Dunga fazendo papel de anão abobado, falante e sem mais condições mínimas de orientar talentos.
O jogo que faz moda, vez por outra, é o seguinte: reúne-se “uma meia dúzia de três ou quatro”, como dizia um irmão marista gozador, para lançar uma ponto.com gota serena, mais arretada tornada pela milionária publicidade feita, que catapulta as ações para a estratosfera, adquiridas pelos tolos, que imaginam poder ganhar rios de dinheiro com tão “espetacular” negócio. Com as ações infladas artificialmente, os fundadores da ponto.com vendem suas cotas por um preço elevado, o final todo mundo já sabendo. Há casos recentes onde acionistas de determinada ponto.com ficavam, em média, sete dias com as ações do empreendimento, passando adiante como se uma batata quente estivesse lhe queimando as mãos. No frigir dos ovos, os últimos “otários”, além de chamuscarem as mãos, terminam por queimar também os traseiros, contribuindo para uma desacreditação generalizada, causando um desaquecimento da vanguarda tecnológica e uma perniciosa desaceleração na credibilidade do empreendedorismo.
Bom seria que empresários e homens públicos pudessem dar uma paradinha em suas caminhadas, os primeiros na direção de balancetes que buscam demonstrar supremacia sobre os concorrentes, os segundos nas suas bolações eleitoreiras para não ficarem de fora do bloco dos aclamados. E lessem atentamente o livrinho do Leandro Konder Os Sofrimentos do “Homem Burguês”, editado há alguns anos pelo Senac-SP, instituição privada atualmente responsável por uma coleção “destinada a acolher a amplíssima gama de assuntos e gêneros que dão substância à vida social do país”. Trocando em miúdos: uma louvável iniciativa que se preocupa com as posturas que obscurecem as ações humanas conseqüentes. E que deseja evitar o surgimento de comandos sectários, de qualquer naipe, que fragmentam os alicerces democráticos já edificados.
Os últimos dados do IBGE sobre distribuição de renda reforçam a urgente necessidade de se ler o texto do Konder, para bem diferenciar sexo de promiscuidade, nudez artística de amostração televisiva, divulgação governamental de propaganda enganosa, transcendência religiosa de ilusionismos aeróbicos, tristeza de chorismo, postura olímpica de vitimismo, lucro honesto de apropriações moralmente escandalosas. E os dados apresentados pela revista Veja, edição 2074, 20-08-2008, confirmam a necessiade da leitura do livrinho-gigante do Konder.
Saibamos bem diferenciar Ana Maria Braga de Fernanda Montenegro, Pedro Simon de Renan Calheiros e Dunga do Felipão, para não se dizer que, aqui, se falou apenas de flores. E para que depois não se venha com chorumelas, lastimando o tamanho do estrago feito na evolução democrática do Brasil, uma país que necessita pôr de lado sua infantilidade cidadã.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

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