sábado, 16 de agosto de 2008

Obrigado, Dom

Amado Dom Hélder: quando das proximidades das comemorações do centenário de seu nascimento, sinto-me no dever de, em oraçãos múltiplas, continuar a agradecer ao Pai pelos seus inúmeros ensinamentos, transmitidos para os mais diferenciados rincões deste mundão de Deus.
Nós lhe somos eternamente devedores. Pelas memoráveis meditações deixadas pelo padre José, uma delas retrato fiel da sua atuação magnificamente ecumênica entre nós: “As árvores que jamais perdem o viço, que são perenemente verdes, olham, com uma ponta de inveja, as árvores que se desnudam de folhas e lembram esqueletos ... Quando a primavera irrompe, só quem foi despojado vibra com o milagre da ressurreição.”
Jamais esqueceremos o seu pronunciamento, em abril de 1964, diante da multidão que o aplaudia em frente à Matriz de Santo Antônio, quando advertiu muito fraternalmente, com seu jeitão carinhoso de dizer bem o que bem queria dizer: “Ninguém pretenda prender-me a um grupo, ligar-me a um partido, tendo como amigos os seus amigos e querendo que adote as suas amizades.” Como que a anunciar, uma vez mais, o seu maior desejo cristão, o de ver todos com muita vida e vida em abundância.
Não olvidaremos jamais seu apoio pastoral à Comissão Justiça e Paz, quando as aves governamentais não eram de gorjeio e tampouco queriam por aqui cantar democraticamente. E sempre recordaremos a manifestação do poeta Fernando Pessoa, freqüentemente a todos nós mostrada quando sua intuição percebia os nossos primeiros sinais de esmorecimento: “Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha”.
Sentimo-nos ainda profundamente felizes pelas suas imorredouramente incontáveis manifestações de apreço à Maria Santíssima, Mãe do Homão. Sob o exemplo dela, saberemos continuar a caminhar pelas veredas da Vida, proclamando a Justiça Social, aguardando, através de uma postura ativamente não-violenta, a chegada de novos tempos, religiosos inclusive, quando então nos tornaremos ainda mais fraternos.
Suas múltiplas utopias evangelizadoras, todas elas vivenciadas sob as pegadas de Jesus de Nazaré, continuarão incorporadas ao nosso ideário existencial. Como sempre helderistas, divulgaremos mais eficazmente as suas mensagens, para uma inserção consciente de todos nos planos de Deus, em momento algum subestimando seu alerta: “Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade”.
Devedores da sua trajetória sementeira, de incontáveis bons frutos, nos sentiremos cada vez mais profundamente recompensados pela sua firme presença espiritual entre nós, cada um se considerando parcela, inclusive Dom Maurício Andrade, nosso Primaz Anglicano e seu fã de carteirinha, sem imitações nem fingimentos. Todos nós respaldados num ensinamento transmitido no seu querido Seminário da Prainha, na sua amada Fortaleza: “Confia no Senhor de todo coração e não te fies em tua própria inteligência" (Pv, 3-5).
Embora saudosos e ainda não de todo conformados, estamos jubilosos com as proximidades das comemorações do centenário de seu nascimento, aplaudindo sua profética meditação: “Quando sentires o primeiro sinal inconfundível de morte próxima, não te fies em ti ... Agarra-te com a Graça. Aviva a crença na vida eterna. Não peças um segundo a mais. Fecha os olhos e pula no abismo de misericórdia da compreensão divina.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco)

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