terça-feira, 19 de agosto de 2008

Como escrever sem academiquês

Quando o talentoso pesquisador Dan Ariely, do MIT resolveu escrever sobre as fraquezas, erros e gafes das decisões cotidianas que sofrem influências de múltiplas forças invisíveis – emoções, relatividades, expectativas, apegos e normas sociais, entre outras -, seguramente estava baseado nas mundialmente conhecidas Recomendações dos Sábios da Mandchúria. Balizamentos indispensáveis para quem busca integrar-se em trabalhos coletivos, desenvolvidos com pessoas inteligentes, criativas, generosas e de bem com a vida. Ei-los: “Abra seus braços para as mudanças, mas não deixe que elas ultrapassem os seus valores. Ame profundamente, sem medo de se machucar, pois esta é a única maneira de viver plenamente. Lembre-se permanentemente dos 3 R’s: Respeito por si próprio, Respeito pelos outros e Responsabilidade pelas suas ações. Não permita que pequenas disputas machuquem uma grande amizade. Leia mais livros e assista menos TV. Tenha um forte comprometimento e contínua paixão pelo seu trabalho. Nunca zombe dos sonhos dos outros. Fortaleça seu conhecimento, pois este é o único meio de se atingir a imortalidade. Nunca interrompa alguém que lhe estiver elogiando. Uma vez por ano vá a algum lugar onde nunca esteve antes. Se ganhar muito dinheiro, ajude outras pessoas enquanto estiver vivo, posto que essa é a maior de todas as riquezas. Aprenda algumas regras e quebre umas outras tantas. Memorize uma poesia favorita. Fale devagar, mas pense de modo rápido. Lembre-se de que grandes paixões e grandes realizações envolvem grandes riscos. Quando perceber que cometeu um erro, aja rapidamente para corrigi-lo. Passe algum tempo sozinho. Tenha sempre uma visão positiva do mundo e do seu derredor. Tenha responsabilidade sobre sua própria vida, criando um forte diferencial pessoal. E lembre-se sempre que os melhores relacionamentos são aqueles em que o amor é maior que a necessidade”.
No seu livro Previsivelmente Irracional, Campus, 2008, ele esmiuça as forças ocultas que influenciam as decisões nossas de cada dia. Revelando, para início de conversa, as origens do seu modo heterodoxo de ver o mundo, tudo teve início quando da explosão de um foguete de sinalização, de magnésio, que o deixou, israelense de 18 anos, com 70% do corpo com queimaduras de terceiro grau. Prostrando-o, envolto em múltiplas bandagens, por três anos num hospital. Tempo que lhe propiciou a emersão de observações mais consistentes sobre o comportamento seu e dos outros, iniciadas a partir de conversas com enfermeiras, por ocasião da troca diária das ataduras.
A leitura do livro do Ariely, hoje titular da cátedra Alfred P. Sloan, professor de Economia Comportamental do MIT - Massachusetts Institute of Technology, reforça a necessidade de divulgar entre os docentes universitários brasileiros, os balizamentos dos sábios da Mandchúria acima. Quando vejo um jovem docente universitário, bolsão a tiracolo, barba por fazer e um ar de quem descobriu a Lei do Universo, como se todo o seu derredor fosse constituído de párias muitos graus abaixo do seu iluminado saber, fico a imaginar como seria bom para aquele metido a ser conhecer o testemunho do próprio Ariely, quando da sua visita a uma instituição de pesquisa, em Princeton: “Até consegui passar algum tempo na cozinha do instituto, aprendendo a cortar, assar, fritar e cozinhar sob a supervisão dos chefs Raymond e Blancher – eu não poderia querer lugar melhor para ampliar meus horizontes”.
O texto do Ariely desfrescuriza, desabestalha, transforma derredores, favorecendo um outro mundo que está a caminho, abrindo veredas para “enxergâncias” construídas coletivamente, a partir da colaboração de auxiliares de todos os matizes. Leitura sem academiquês, para quem entende que “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Abandonando as pesquisas que tentam provar que é possível ao ser humano abocanhar seus próprios cotovelos.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, Recife - Pernambuco)

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