quarta-feira, 11 de junho de 2008

Utopias Peregrinas

Recebi ontem de uma amiga muito querida, Nelly Carvalho, talento universitário ouro de lei, um CD com faixa interativa sobre a vida de Dom Hélder Câmara, contendo ainda a Sinfonia dos Dois Mundos. Um presente valioso, que me proporcionou imensa saudade de quem muito me orientou na vida, ampliando minha criticidade cidadã, num mundo que anda a necessitar de ampla renovação espiritual em prol dos desassistidos em todos os sentidos. A Sinfonia traz como recitante o próprio Hélder Câmara, sendo executada pela Orchestre Symphonique Collegium Musicum, Fribourg, na França. Pode ser adquirida no IDHeC - Instituto Dom Hélder Câmara, rua Henrique Dias, 208, na Boa Vista.
Releio Utopias Peregrinas, editada pela Universidade Federal de Pernambuco, reproduzindo aqui o que escrevi em 1994: “O livro de Dom Hélder Câmara é prova cabal de como se pode respeitar a pluralidade ideacional de um contexto acadêmico sem resvalar para cerceamentos puristas nem populismos imediatistas que tão somente deslustram, uns e outros e a curtíssimo prazo, históricas caminhadas sacrificais passadas”.
Sou suspeito para falar dos trabalhos do ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife. Seu ideário, repleto de notáveis antecipações e proféticas advertências, pululam no meu interior de nordestinado. Mas não gostaria de passar a oportunidade, através destas Reflexões, de encarecer aos civicamente desmotivados pelas irresponsabilidades de parte do Congresso Nacional, onde alguns arrotam coragem e se escafedem quando chamados a exercer uma escorreita corregedoria, uma leitura reflexiva de Utopias Peregrinas, um ontem incrivelmente eivado de hojes, advertências bojadas de muita solidariedade concreta para com os excluídos do mundo inteiro.
Uma comprovação da contemporaneidade dos escritos do Dom torna-se palpável quando da leitura de Utopias Peregrinas: a. Torna-se indispensável um repensar do desenvolvimento mundial; b. Urge reformular a própria noção de cultura; c. O desenvolvimento dos povos não deve ficar restrito a simples aumentos dos recursos materiais; d. Todo desenvolvimento econômico exige um suplemento de alma; e. Redução drástica dos gastos improdutivos, especialmente os militares; f. Otimização dos gastos públicos; g. Maiores recursos para o desenvolvimento do ser humano, aumentando-se as responsabilidades públicas nos setores Educação e Saúde.
A crise maior, nas últimas décadas , não é econômico-financeira . É de outra natureza . É uma crise de percepção . Poucos estão inquietos com uma desagregadora distribuição de renda mundial, quando um percentual pequeno de ricos abocanha mais de 70% das riquezas planetárias.
Em 1978, quando inúmeros se beneficiavam do regime de exceção no Brasil, pensadores cristãos se pronunciavam publicamente: “A aurora se aproxima, queiram ou não queiram os arautos dos espancamentos, das violências sexuais, dos castigos cruéis, dos assassinatos políticos, dos esquadrões da morte, da corrupção desenfreada, dos acobertamentos ilícitos e dos favorecimentos espúrios” (Diário de Pernambuco, 03/03/1978)
Em 10 de dezembro de 1989, o Diário de Pernambuco divulgava uma das maiores manifestações de apreço já publicadas na imprensa brasileira: “Desejamos expressar publicamente a nossa imensa admiração ao irmão Arcebispo, cuja presença, silenciosa e fecunda, continua a ser para nós fonte de inspiração, fé e coragem. ... Não o esqueceremos jamais, Dom Hélder Câmara. As turbulências não nos intimidarão. Continuaremos a travar o bom combate, denunciando a acomodação e o conformismo, a alienação e as posturas dos que menosprezam os marginalizados, vítimas indefesas de um sistema iníquo e predador ... Somos também Igreja e temos plena consciência do nosso papel libertador. E estamos felizes por tê-lo entre nós, como Pastor, Amigo e Irmão”.
Relendo Utopias Peregrinas, motivado pelo presente recebido da Nelly Carvalho, amplio as minhas convicções: “os objetivos serão alcançados mais duradouramente se a receita contiver uma maciça dose de autenticidade, uma mancheia de postura ética, as estratégias estabelecidas com as cartas na mesa, na manga do colete só as da mulher amada. E uma vontade danada de largar posicionamentos antigos, para abarcar uma contemporaneidade muito arretada ... para todos”.
Sou um anglicano feliz, por ter convivido por mais de duas décadas, sem precaução alguma, com o autor de uma reflexão de primeira grandeza: “Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo.”

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