quinta-feira, 12 de junho de 2008

Paulo, Numa História Cativante

Não escondo a admiração que sinto pelo apóstolo Paulo, o bandeirante dos gentios. Estou plenamente convencido de que o Cristianismo deve suas estruturas alicerçais à pessoa de Cristo e à teologia de Paulo. Através de suas cartas, o apóstolo estabeleceu os balizamentos de uma vivência ajustada à mensagem proclamada pelo Homão de Nazaré.
Muitos livros já foram editados sobre Paulo, o de Tarso, aquele que, antes da conversão, foi testemunha ocular do apedrejamento de Estêvão, em 32. d.C., muito embora jamais tenha contemplado o Nazareno em pessoa. Suas características mais pormenorizadas são descritas no livro apócrifo Atos de Paulo e Tecla: “um homem de baixa estatura, quase calvo, pernas tortas, de corpo volumoso, sobrancelhas unidas, um nariz um tanto adunco, cheio de graça: pois às vezes parecia um homem, e outras vezes tinha a fisionomia de um anjo”.
Sobre Paulo, a Paulus e a Loyola lançaram recentemente um livro diferente de todos os já publicados sobre o filho ilustre de Tarso. Um texto de Jerome Murphy-O’Connor, catedrático da École Biblique at Archéologique Française, em Jerusalém, intitulado Paulo de Tarso, História de um Apóstolo. Com um esclarecedor prefácio à edição brasileira de autoria do padre jesuíta Valdir Marques. Um mini-ensaio sobre as diferenciações existentes entre history e story, quando o autor do livro traz afirmações que podem entontecer os mais cândidos, como a de que Paulo não caiu do cavalo na estrada de Damasco, como a de que Paulo não foi totalmente reconhecido como apóstolo em sua vida, como a de que sua personalidade era pouco dócil.
A intenção de O’Connor é única: apontar as especulações teológicas que não são dogmas de fé, aguçando a curiosidade do leitor na busca de iniciativas para reflexões mais acuradas, estabelecendo descobertas e aprofundamentos que favoreçam o fortalecimento da fé em Jesus de Nazaré, através do mais contagiante dos seus seguidores primeiros.
O livro ainda traz uma novidade para os leitores brasileiros: a geografia das localidades em que Paulo viveu ou por onde passou, através das coordenadas mostradas pelo programa Google Earth. Lá, teatros, ágoras, hipódromos e ruas ampliam curiosidades e pesquisas, ensejando uma compreensão mais acurada sobre as andanças de quem se considerava também apóstolo, posto que “depois destes apareceu também a mim, como um que nasceu fora do tempo” (1Co 15,8).
Sem teologuês, O’Connor nos mostra como o apóstolo Paulo rapidamente alterava seu humor, ressaltando fatos que o deixavam feliz ou triste, interessado ou indiferente, despreocupado ou temeroso, numa interação contínua vivenciada entre emoções e pensamentos.
Salientando que todo contador de histórias deve se concentrar em seus personagens, o autor de tão deliciosa biografia nos brinda com um texto nada simplório, sedutor por excelência, digno dos tempos de agora, já pós-modernidade, onde “não podemos cair na armadilha do desejo nostálgico pelo retorno daquela modernidade primitiva que deu à luz o movimento evangélico”, advertência feita pelo pastor batista Stanley J. Grenz, eternizado prematuramente em 2005.
Num contexto planetário, onde o tempo não é mais entendido como apenas linear, a aparência não traduz muitas vezes a realidade, o racional nem sempre é confiável e os povos voltam a se interessar pelo sobrenatural, mister se faz que a Mensagem do Homão da Galiléia seja divulgada sem eruditismos cavilosos, a regra maior advinda de um escritor sem religião, Graciliano Ramos: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.
Como orienta a parábola da figueira (Jo 15,1-8), a função dos ramos é dar frutos. Muito embora cada um deles, como nós, somente estando apto para a produção se estiver bem nutrido, com uma “aprendência” que amplie a “enxergância” dos novos horizontes. Conservada sempre a boa consciência, aquela que busca a melhor das interpretações sobre uma verdade que por inteiro jamais será desvendada.

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