quarta-feira, 25 de junho de 2008

Ensinamentos Valiosos

Quando concluí a leitura, nos feriados juninos acontecidos por todo o Nordeste, de uma coletânea de ensaios editada pela Paulinas, muito ampliei minha compreensão sobre a realidade social e eclesial da América Latina e do Caribe. Com suas múltiplas transformações, umas progressistas, outras visivelmente protelatórias, o processo todo provocando atordoamentos os mais diferenciados na vida da nossa gente.
Em parceria com a SOTER - Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, o livro Caminhos da Igreja na América Latina e no Caribe – Novos Desafios, Paulinas-SOTER, 2006, congrega especialistas renomados: Franz J. Hinkelammert, Chico Whitaker, Otto Maduro, Jon Sobrino, José Comblin, Gustavo Gutiérrez, Ronald Muñoz, Marcelo Barros, Pablo Richard e Maria Clara Lucchetti Bingemer, entre tantos outros merecedores de nossos mais calorosos entusiasmos.
As reflexões do filósofo Otto Maduro, sobre Fundamentalismos, é oportuníssima, quando se observa o termo sendo empregado como referência aos outros, aos que pensam diferentemente da gente. Ele mostra como o termo surgiu e como os significados de fundamentalismo e fundamentalista se alteraram com a história e a geografia, sendo palavras com pouco mais de um século de existência.
A explanação de Otto Maduro, PhD pela Universidade de Louvain, Bélgica, me fez recordar a história daquele religioso nordestino, puritanoso e moralista, que fez um barulho dos seiscentos diabos numa barbearia lisboeta, que portava em sua fachada uma faixa de bom tamanho, anunciando CORTA-SE CABELO E PINTO. Sendo esclarecido que o pinto vinha do verbo pintar, o moralista saiu de fininho, cabeça baixa, mortinho de vergonha e trajetória.
Outro ensaio relevante é da cabeça muito bem pensante do teólogo José Comblin, um dos mais atuantes expoentes da teologia da libertação, atualmente residindo na Paraíba, Nordeste do Brasil. Seu texto Os Pobres da Igreja Latino-americana ressalta, logo no seu início, que o tema pobres não é criação latina, posto que ocupa posição de destaque em todo o Novo Testamento, sendo ainda profeticamente anunciado no Primeiro Testamento. Nos dois testamentos, sendo exigido dos poderosos plena justiça para os excluídos, nunca mera generosidade gratuita. Uma luta que inspirou Alberto Cunha Melo, poeta nascido em Jaboatão dos Guararapes, juntinho do Recife, de muita sensibilidade profética, para escrever Aos Mestres, com Desrespeito: Dizem que meu povo / é alegre e pacífico. / Eu digo que meu povo / é uma grande força insultada. / Dizem que meu povo / aprendeu com as argilas / e os bons senhores de engenho / a conhecer seu lugar. / Eu digo que meu povo / deve ser respeitado / como qualquer ânsia desconhecida da natureza. / Dizem que meu povo / não sabe escovar-se / nem escolher seu destino. / Eu digo que meu povo / é uma pedra inflamada / rolando e descendo / do interior para o mar.
José Comblin analisa as “evoluções” acontecidas após a publicação dos documentos de Medellin e as resistências episcopais às denúncias orientadas pelo secretário-geral CELAM. E reproduz parte do documento de Puebla, identificando-o como “eco do grito dos pobres”: “Do coração dos vários países que formam a América Latina está subindo ao céu um clamor cada vez mais impressionante. É o grito de um povo que sofre e que reclama justiça, liberdade e respeito aos direitos fundamentais dos homens e dos povos” (87). Comblin é taxativo: “Somente uma teologia baseada numa Igreja dos pobres será capaz de evangelizar, isto é, de penetrar no mundo, como uma força de iluminação e de conversão. As teologias inspiradas no fundamentalismo, como aquelas dos movimentos espiritualizantes atuais, vão conseguir conservar os católicos tradicionais por um tempo, mas apenas por um tempo".
Na ótica do economista, filósofo e também teólogo da libertação Franz J. Hinkelammert, PhD em Economia pela Universidade Livre de Berlim e docente de Economia do Departamento Ecumênico de Investigação, na Costa Rica, “o que ocorre com os Direitos Humanos no atual processo da globalização retrata o que acontece com os seres humanos, naturais – corpos falantes – sob a impacto das lógicas reais produzidas por esse processo. Discorrer sobre os Direitos Humanos significa falar da dignidade humana ameaçada e violada por um sistema que se desenvolve por uma dinâmica e segue suas próprias leis, e estas que passam por cima dos Direitos Humanos”. Seu ensaio A Economia no Processo Atual de Globalização e os Direitos Humanos revela três dimensões perversas atuais da sociedade: a abertura tendenciosa ilimitada para o capital financeiro; a reestruturação do Estado na direção de um Estado policial e militar; e a flexibilização da força de trabalho, que resulta na anulação de direitos de importância fundamental.
Os ensaios são preciosos. Segundo Stanislas Breton, (O Futuro do Cristianismo, Paulinas), “pode o cristianismo responder à acusação de cansaço e de envelhecimento?” ... “como repropor essa fé austera em nosso mundo secularizado e laico?” ... “como conceber, entre religiões tão diferentes, uma forma de colaboração que nos permita somar forças para aliviar o sofrimento humano?”. Indagações que somente poderão ser respondidas através de uma proposta magna de eclesiologia renovada, evitando-se o despedaçamento de quem nos pediu que proclamássemos a mesma coisa (1Cor 1,10), sem invejas nem divisões (1Cor 3,3), todos arregaçando as mangas como “cooperadores de Deus”, “todos sendo um em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

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