Recebi da filha Ana Carolina um livro oportuníssimo, nas vésperas do início das comemorações do centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara, quando até alguns bispos estão aderindo, depois de tentarem alijar o Dom da história contemporânea. Trata-se de As Noites de um Profeta – Dom Hélder Câmara no Vaticano II, de José de Broucker, biógrafo do Dom, presidente da Associação Dom Hélder – Memória e Atualidade, na França. Uma edição Paulus 2008, com preâmbulo do próprio Broucker.
Com a leitura do livro, melhor se compreende as 290 cartas escritas por Dom Hélder Câmara ao longo do Concílio Vaticano II, “nas quais se misturam reportagens, anedotas, retratos, diálogos, assuntos dos lugares e das questões problemáticas, meditações, estados d’alma”. Para tornar-se testemunho de mensagem de uma esperança mais comprometida com os menos afortunados de um mundo que se deseja mais justo.
O testemunho do Pe. Congar sobre as andanças de Dom Hélder no Concílio está em seu Diário, datado de outubro de 1962: “98 bispos moram aí, dos quais 75 brasileiros. Em pouco tempo, eu vejo uma dezena de bispos, em seguida chega Monsenhor Hélder (...) Depois de ter tagarelado um bom tempo, vamos para uma sala onde se reúnem conosco uma dúzia de jovens bispos. Eles me interrogam. Monsenhor Hélder conduz: um homem muito aberto, porém cheio de idéias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão”. Uma visão já antecipada em dezembro de 1960, quando Dom Hélder assim respondia a um questionário elaborado por um cardeal de Roma: “Não é tarefa de um Concílio ‘definir critérios para a fusão ou o desmembramento de dioceses’. ... Mais impressionante é que não sejam considerados os problemas da humanidade”. E citava dois dos mais dolorosos problemas de então: a explosão demográfica e a terrível desigualdade social. O Dom possuía uma cidadania cristã dotada de um duplo olhar: sobre a realidade visível da Igreja e sobre a realidade vivida da humanidade.
O que Dom Hélder Câmara escreveu em suas Cartas Circulares, com seu jeito peculiar de dizer sem ofender, oferece uma panorâmica de uma realidade então ainda tridentina, eivada de muita hipocrisia: “Sabem vocês que, em pleno Vaticano II, na basílica de São Pedro, as ouvintes (mulheres convidadas) têm um bar, a que os Padres conciliares não têm acesso? ... Isso me parece ser uma confirmação da tese de ser a mulher encarnação do diabo e sinônimo de pecado ...” E ainda dava uma sutilíssima alfinetada naqueles que se opunham à comunhão dada em pé, “como se, depois de séculos, o celebrante não comungasse de pé”.
O livro de José de Broucker é valioso como um aperitivo de primeira grandeza para todos aqueles que buscam ser helderistas, jamais helderétes, num mundo desafiante deste ainda início de século. Para se ler na íntegra as Cartas, deve-se ter os pés no chão e a mente solidária com os menos favorecidos, os sem-terra, os sem-teto, os sem-direitos, os sem nada parecido com uma mínima condição de ser gente. Reflexões que atordoam os alguns “ainda vivos e já desencarnados”, olhinhos somente virados para o Alto, desapercebidos do irmão de mão estirada, a implorar um simples pedaço de pão.
Em Roma, novembro de 1965, Dom Hélder escreveu: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como se bebe água? Sem nenhuma dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”. Hoje, as leituras das Cartas Circulares ratificam: o Dom sempre foi um cadinho nordestino, onde a criança sempre autêntica, embriagada pela mensagem do Homão da Galiléia, louca por mudanças estruturais que redignificassem o Ser Humano, a cantar a Esperança, santifica o seu derredor planetário, imaginando-se um pedaço da Criação, buliçoso sempre, cutucador por excelência, emérito despertador de uma consciência planetária.
Dom só existiu um. Quem hoje se auto-intitula de Dom está cometendo plágio. Ou é fingido ou amacacado.
(Jornal do Commercio, Recife – Pernambuco, 04.06.2008)
Com a leitura do livro, melhor se compreende as 290 cartas escritas por Dom Hélder Câmara ao longo do Concílio Vaticano II, “nas quais se misturam reportagens, anedotas, retratos, diálogos, assuntos dos lugares e das questões problemáticas, meditações, estados d’alma”. Para tornar-se testemunho de mensagem de uma esperança mais comprometida com os menos afortunados de um mundo que se deseja mais justo.
O testemunho do Pe. Congar sobre as andanças de Dom Hélder no Concílio está em seu Diário, datado de outubro de 1962: “98 bispos moram aí, dos quais 75 brasileiros. Em pouco tempo, eu vejo uma dezena de bispos, em seguida chega Monsenhor Hélder (...) Depois de ter tagarelado um bom tempo, vamos para uma sala onde se reúnem conosco uma dúzia de jovens bispos. Eles me interrogam. Monsenhor Hélder conduz: um homem muito aberto, porém cheio de idéias, de imaginação e de entusiasmo. Ele possui aquilo que falta em Roma: a visão”. Uma visão já antecipada em dezembro de 1960, quando Dom Hélder assim respondia a um questionário elaborado por um cardeal de Roma: “Não é tarefa de um Concílio ‘definir critérios para a fusão ou o desmembramento de dioceses’. ... Mais impressionante é que não sejam considerados os problemas da humanidade”. E citava dois dos mais dolorosos problemas de então: a explosão demográfica e a terrível desigualdade social. O Dom possuía uma cidadania cristã dotada de um duplo olhar: sobre a realidade visível da Igreja e sobre a realidade vivida da humanidade.
O que Dom Hélder Câmara escreveu em suas Cartas Circulares, com seu jeito peculiar de dizer sem ofender, oferece uma panorâmica de uma realidade então ainda tridentina, eivada de muita hipocrisia: “Sabem vocês que, em pleno Vaticano II, na basílica de São Pedro, as ouvintes (mulheres convidadas) têm um bar, a que os Padres conciliares não têm acesso? ... Isso me parece ser uma confirmação da tese de ser a mulher encarnação do diabo e sinônimo de pecado ...” E ainda dava uma sutilíssima alfinetada naqueles que se opunham à comunhão dada em pé, “como se, depois de séculos, o celebrante não comungasse de pé”.
O livro de José de Broucker é valioso como um aperitivo de primeira grandeza para todos aqueles que buscam ser helderistas, jamais helderétes, num mundo desafiante deste ainda início de século. Para se ler na íntegra as Cartas, deve-se ter os pés no chão e a mente solidária com os menos favorecidos, os sem-terra, os sem-teto, os sem-direitos, os sem nada parecido com uma mínima condição de ser gente. Reflexões que atordoam os alguns “ainda vivos e já desencarnados”, olhinhos somente virados para o Alto, desapercebidos do irmão de mão estirada, a implorar um simples pedaço de pão.
Em Roma, novembro de 1965, Dom Hélder escreveu: “Quem aceita o impossível como uma realidade e acolhe o mistério como se bebe água? Sem nenhuma dúvida, as crianças, os embriagados, os loucos, os poetas e os santos”. Hoje, as leituras das Cartas Circulares ratificam: o Dom sempre foi um cadinho nordestino, onde a criança sempre autêntica, embriagada pela mensagem do Homão da Galiléia, louca por mudanças estruturais que redignificassem o Ser Humano, a cantar a Esperança, santifica o seu derredor planetário, imaginando-se um pedaço da Criação, buliçoso sempre, cutucador por excelência, emérito despertador de uma consciência planetária.
Dom só existiu um. Quem hoje se auto-intitula de Dom está cometendo plágio. Ou é fingido ou amacacado.
(Jornal do Commercio, Recife – Pernambuco, 04.06.2008)

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