terça-feira, 15 de abril de 2008

Oração e Vida

Para quem deseja ampliar, pelas mais diferenciadas formas de oração, seu amadurecimento relacional com o Criador, frei Betto afirma que “a fé cristã não admite a derrota da vida pela morte”. E recita poesia feita por Priscila Gontijo, uma jovem de 13 anos, uma lição para todos: “Vivo, logo existo / A morte não tem nada a ver / A morte é pra ser vivida / E a vida para reviver”.
A mais desafiadora das práticas religiosas é a da gratuidade amorosa. Deixar que Deus fale em nós, eis a magistral lição paulina (Rm 8,26-27), muito atrofiada pela racionalidade moderna que em tudo deseja encontrar resultados e eficácias mensuráveis. Ou por uma parcela da classe social dos “emergentes”, modelo “corpore sano in argumentum baculinum”, adepta de seitas, “correntes eletrônicas” e outras presepadas.
Algumas “regrinhas” necessitam ser seguidas por todos aqueles que, pela oração, nunca desanimam, jamais esmorecendo diante dos tropeços e facadas, desilusões e hipocrisias, falsos fervores, invejas, dores de cotovelo, nepotismos clericais, provocações, autoritarismo travestido de piedade e chantagens. Que eliminam salamaleques, amuletos, pirâmides, postulâncias por compadrios, talismãs e fetiches que alienam e destroem, nada edificando na direção da Criação. Ei-las:
1. Orar é estar disposto a “perder tempo”, sem nada temer; 2. A oração só acontece quando se está convicto, sem qualquer esforço mental, da presença infinita de Deus; 3. Através da oração, adequamos nossa vontade à vontade do Criador; 4. Oração é uma referência a Deus presente em nossa vida, podendo ser litúrgica, recitativa, meditativa, intuitiva ou simples atenção n’Aquele que é a raiz de todo ser humano, base da nossa existência, como dizia Paul Tillich, um dos expoentes teologais do século passado; 5. Orando, entender que a presença de Deus mais se expande quanto mais recolhidos estivermos.
Outro dia visitei uma artista plástica internacionalmente consagrada. No seu atelier, situado num dos recantos mais encantadores de Olinda, me deparei com dezenas de belíssimas aquarelas, retratando, todas elas, pedaços do derredor: árvores, cajus, rosas, catedrais, coqueiros, casario e muito mar. Recortes de um mundo que se encontra ainda esmaecido para os que ainda não se inseriram no “espírito” de um savoir vivre repleto de um humanismo necessariamente multicolorido.
Com seu jeito cativante de receber, sua argumentação sem retoques, sua voz bem pausada e quase grave, a pintora carregava intenso amor pela Vida, me fazendo sentir, no seu ambiente de trabalho, como que acariciado pelas mãos do Pai, na própria Casa do maior dos artesãos. Tornei-me extasiado diante das cores, humores e verdores de uma mente lucidamente criativa de “apenas” 56 anos, segundo confissão dela própria.
Conviver por alguns instantes com aquela artista, autêntico patrimônio brasileiro de Olinda e Recife, foi para mim uma forma de oração. E de agradecer ao Pai por ela existir. E por ter ficado mais humano ao conhecê-la, ao sentar na sua rede, tomar sua cachaça, contemplar seu jardim, testemunhar sua estupenda visão de mundo, sendo ela papa-jerimum pernambucanizada que nem eu, ela leão, eu apenas peixe.
Uma oração plenamente vivenciada num fim de tarde, numa ladeira de Olinda, sob nenhuma denominação religiosa, o papo se esticando depois de um café com tapioca ao molho de coco, o assunto ficando restrito à Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, programada para 4 a 11 de maio de 2008. Uma iniciativa, agora centenária, liderada por um padre anglicano, Paul Wattson, no estado de Nova York, de 18 a 25 de janeiro de 1908. Para que no planeta se plenifique a vida e vida em abundância (Jo 10,10).
(Publicada no site da Globo Nordeste, abril de 2008)

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