segunda-feira, 3 de março de 2008

Pangarés e Farolagens

De quando em vez, deparo-me com um atoleimado ser humano pela frente. Abilolado, como dizia minha vó Zefinha. Sem entender bulhufas de uma contemporaneidade cada vez mais dinâmica, destila besteiras por todos os poros, irracionaliza fatos do cotidiano mais simples, perambula rodeado de crenças malucas, retratando um subdesenvolvimento mental que é o pior de todos eles. E vive a engabelar ele mesmo e o seu derredor com suas invencionices e presepadas.
O João Silvino da Conceição, esse arretado PhD em coisas da vida, costuma dizer que todo pangaré que fica sempre olhando para os seus problemas, será por eles derrubado. E cita não sei quem, alguém que ele leu e muito gostou: “Os fatos costumam ser neutros; são as crenças que afetam nossas formas de pensar, sentir e agir”. Ele ficou impressionado, certa feita, com uma entrevista concedida pelo Stephen Hawkings, esse físico britânico portador de uma crescentemente gravíssima doença neurológica, quando ele declarou estar se sentindo muito feliz por ter contribuído para um melhor conhecimento das origens do Universo! E o Stephen estava recém-casado!!
Numa das últimas visitas que fiz à casa-quase-casebre do Silvino da Conceição, conversa vai, conversa vem, cerveja sempre gelada e uns pedacinhos de queijo coalho para desenfastiar o estômago, ele me disse que bem vive quem sabe entender as três regras de um jogo de damas. Atendendo a minha curiosidade, declinou-as: 1. não se pode fazer duas jogadas por vez; 2. somente se pode mover para frente; 3. quando se chega na última fila, se está livre para se ir onde quiser. E arrematou, riso franco, peito aberto, sem medo algum de ser feliz: “Se todo pangaré soubesse aplicar as regras de um jogo de dama, logo logo deixaria de ser um pangaré cheio de estrepolias”. E concluiu, cheio de convicção: “Todo ser humano que sofre antes do necessário sofre mais do que o necessário”.
Gosto muitíssimo de papear com o Silvino da Conceição, principalmente quando, vez por outra, insatisfações múltiplas parecem querer catapultar meu otimismo cristão para bem longe. Quando de minha visita última, já portão aberto e abraços de até-outro-dia dados, ele presenteou-me com uma das suas, uma “saideira” de primeiríssima: “Quando alguém se considera um ser humano puro e simples, e com um terceiro acontece o mesmo, então é natural se encontrarem para um bate-papo sempre aberto, as diferenças administradas com sabedoria e paciência recíprocas. Quando, entretanto, um deles se considera uma altíssima montanha, o outro pensando o mesmo, as convergências jamais acontecerão. Montanhas podem ser altas, mas jamais podem se tocar...”
De retorno às minhas aulas, ainda mais cônscio das responsabilidades magisteriais e dando continuidade ao meu mandato no Conselho Estadual de Educação de Pernambuco, exercido com muita fraternal independência, sem rebaixamento nem bajulações, tampouco nepotismo, para tanto contando com a colaboração notável dos pares conselheiros e de admiráveis funcionários, sinto-me cada vez mais apto na identificação dos pangarés da província, para rejeitar suas farolagens, que apenas ampliam inquietações e desconfortos, sejam elas civis, militares e religiosas. E torno-me bem mais afiado na identificação das “montanhas” do Silvino da Conceição, charladores que se auto-intitulam com uns títulos pós isso e pós aquilo, apenas trombeteados para engabelar panacas, como se todos fossem remelosos lambaios dos seus conjunturais postos de mando.
No mais, é não esquecer Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”.
Mário Quintana e João Silvino da Conceição, doutores de Vida, cada um com seus níveis de sabedoria, ainda que sem brasões nem lamentações.

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