terça-feira, 18 de março de 2008

Guerra por Talentos

O afilhado mais novo do João Silvino da Conceição, recentemente tornado fera de um curso superior, me pergunta sobre as perspectivas futuras dos atuais universitários, num amanhã que já se faz presente nos cenários mundializados de agora. A resposta que eu lhe ofereci está calcada no ponto mais crítico dos atuais indicadores estatísticos, segundo as revistas especializadas: a falta de novos talentos para cargos executivos. Um estrago que causará impactos negativos bem maiores que os benefícios proporcionados pela Internet, pelas ultra-rápidas alterações tecnológicas e pelas mutabilidades quase diárias de um mercado de bens e serviços cada vez mais interdependente.
Em escala planetária, o mundo empresarial se depara com uma convergência de fatores antes nunca acontecida, envolvendo índices demográficos, alterações sociológicas e reestruturações organizacionais, sem levar na devida consideração a ampliação da competitividade. Os prognósticos analíticos dos institutos mais consagrados apontam para uma situação preocupante: se as empresas menosprezarem a demanda de executivos qualificados, poderão se ver fora dos contextos concorrenciais em poucos anos. A própria atual crise norte-americana é em parte causada pela deficiência de talentos executivos, a começar pela própria figura presidencial, sem sombra de dúvidas uma das personalidades mais grotescas da história política da grande nação do hemisfério norte.
Uma estatística dos países desenvolvidos aponta para a relevância da questão: entre 2000 e 2015, o número de pessoas entre 35 e 45 anos – o conhecido talent pool (fonte de talentos) se reduzirá em 15%. Com dois fatores adicionais: as Faculdades de Administração, as mais conceituadas logicamente, estão desenvolvendo analistas de negócios, relegando a segundo plano a formação de lideranças profissionais; e o crescimento quantitativo das pequenas e médias empresas, bem mais atraentes que as gigantescas, que estão se despersonalizando velozmente, graças a uma incapacidade de ampliar, além das faixas salariais, o prazer em seus ambientes de trabalho.
Os sinais dessa emergente crise de talentos também podem ser dimensionados por outros sintomas: a rotatividade de altos executivos – segundo levantamento realizado pela Management Review, mais de 40% dos novos executivos contratados fracassam antes de completar dois anos de trabalho; a impotência das organizações em identificar e manter os executivos mais vocacionados; e um falho sistema de formação de novos talentos, por uma atenção quase exclusiva na preparação de recursos humanos que atendam apenas as necessidades da organização.
A ausência de talentos nos países desenvolvidos acarretará um gigantesco prejuízo para as regiões que estão buscando ocupar seus espaços no cenário internacional. O Brasil como um todo é exemplo marcante na América Latina. A recrutação de novos executivos até nas regiões mais desenvolvidas reduzirá, em futuro próximo, o nível de reposição, acarretando uma competitividade capenga, sem as indispensáveis muletas estratégicas. Para se ter um exemplo desesperante, em São Paulo, Folha de São Paulo de 14 de março 2008, pesquisas educacionais apontam para uma gigantesca ignorância em matemática elementar: mais de 80% dos estudantes do ensino público daquele estado não dominam os princípios básicos da ciência dos números.
No Nordeste, particularmente em Pernambuco, uma liderança estadual ainda marcante no cenário regional, poderemos não ter um Vale do Silício. Mas certamente devemos evitar o surgimento de um Vale do Soluço, todo mundo a lamentar o leite derramado.
Que as nossas lideranças empresariais mais significativas possam, através de uma ampla conjugação de esforços com o Executivo Estadual, sobrepujar os obstáculos que já se agigantam. Para continuarmos a ser Leão do Norte, brasileiros acima de tudo.
(Publicado no Portal da Globo Nordeste, http://pe360graus.globo.com)

Um comentário:

Éverton Vidal Azevedo disse...

Sempre leio seus comentários no Grupo Anglicano do yahoo. Adorei o blog.
Virei mais vezes aqui!
Abraços.
Sob as bênçãos do Homão de Nazaré.
Inté!