terça-feira, 25 de março de 2008

Encontro de Paixão, 20 Anos Depois

Ganhei este ano um presente de Páscoa diferente. Um “alimentador” que há mais de duas décadas buscava reencontrá-lo nas capitais brasileiras, após havê-lo perdido para alguém que agora não me recordo, que o havia solicitado para um manuseio de final de semana. A busca recuperatória de exatamente um quarto de século foi coroada de pleno êxito graças aos excepcionais recursos internéticos utilizados pelo mundo atual.
Conto o caso como o caso foi, nunca esquecendo Paulo Cavalcanti, um grande conhecedor de Eça de Queiroz, além de comunista de muito caráter e idealismo, promotor público de primeira grandeza. Logo depois que foi lançado o livro Cidadela, de Antoine de Saint Exupéry, em 1982 pela editora Nova Fronteira, adquiri um na saudosa Livro 7, do Tarcísio Pereira, destino de todas as manhãs dos meus sábados de então. Local de encontro para papos dos mais variados calibres entre técnicos, cientistas, literatos e anedotistas, todos voltados para amanhãs brasileiros mais libertários.
Gosto de ler livros rabiscando as páginas, sublinhando linhas ou ressaltando nas margens os pontos mais relevantes. Quando já estava ultrapassando a metade das mais de quinhentas páginas de Cidadela, meados de 1984, alguém que visitava a Fundação Joaquim Nabuco solicita de empréstimo o livro que eu elogiava sem moderação. Depois de mais de trinta dias, o livro me foi anunciado como perdido. Com edição esgotada, nas principais livrarias recifense nenhum sinal do bendito.
Vez por outra, quando emergia a vontade de concluir a leitura de suas páginas, Cidadela voltava a ser procurado. Em vão. Até que, este ano, o endereço de um site muito apropriado para os amantes da boa leitura me foi dado por um irmão muito amado, o Arãozinho Parnes, brasiliense por atividades profissionais desempenhadas na esfera federal: www.estantevirtual.com.br. Uma cooperativa de quase seiscentos sebos, atendendo mais de três mil e quinhentos cidades brasileiras, com um serviço de entrega primeiromundista.
E o reencontro de seu, mais de vinte anos depois. A remessa de Cidadela acontecendo através de um sebo situado em Belo Horizonte, o exemplar em perfeito estado de conservação, sem um risquinho sequer.
Cidadela foi publicado na França em 1948, Éditions Gallimard, quatro anos após o desaparecimento de Exupéry no mar. Ele começou a trabalhar a obra em 1936, sempre afirmando aos amigos que estava escrevendo um poema. Em 1943, os originais já continham mais de novecentas páginas datilografadas. Exupéry costumava confidenciar aos mais íntimos: “em comparação com essa obra, todos os meus outros livros não passam de exercícios”.
Seus pensamentos eram inicialmente escritos em pequenos cadernos, numa caligrafia de poucos amigos. Sob forte instinto premonitório, Exupéry, poucos dias antes do seu trágico fim, em 31 de julho de 1942, solicitou ao seu superior, coronel Gavoille, que entregasse o seu espólio ao Dr. Georges Pélissier, caso não mais retornasse das suas missões aéreas.
Embora seja Exupéry considerado por muitos como intelectual que tenha perdido a fé, Cidadela é um conjunto de reflexões de um ser humano que está a procura de Deus. Em busca profunda por um novo conceito civilizatório, a partir dos excelentes estudos de filosofia adquiridos nos bancos escolares de juventude. Como biógrafo, Marcel Migeo classificava Exupéry como “um dos homens transcendentes do seu século”.
Confesso que o reencontro com Cidadela foi por demais excitante, somente testemunhado pela Melba, meu facho de luz existencial. Como um filho pródigo, recebi o livro de braços abertos pelo Sedex, numa embalagem impecável.
Duas frases do livro, para os leitores deste blog muito estimado: “Dar é lançar uma ponte por cima do abismo da tua solidão”; “o presente é sempre a única coisa que urge pôr em ordem”.
PS. No site citado, dois ou três exemplares de Cidadela pelos sebos Brasil afora. Aos interessados, sucesso!
(Publicado Portal da Globo Nordeste, Colunistas 360, março de 2008)

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