domingo, 6 de janeiro de 2008

Ponderações para 2008

Após as comemorações efusivas de mais uma passagem de ano, alguns balizamentos cristãos se fazem indispensáveis: recordando o Salmo 147, como reforçar as trancas da porta?; como combater, sempre e em toda parte, os três assassinos de toda crença religiosa: a ignorância, o fanatismo e a tirania?; como ampliar, inserindo-a numa contemporaneidade saudável, uma enxergância capaz de amadurecer os nossos interiores, não mais acoitando histerismos, dolorismos, pieguismos, vitimismos e coitadismos?; será que levamos na devida conta que os nossos questionamentos, ceticismos e desilusões são sintomas que estão a exigir um apreender mais consistente sobre a Mensagem de Jesus?; será que nossa religiosidade tem um comprometimento social através de uma solidariedade prática pelos mais pobres e desassistidos?; e, finalmente, estamos levando na devida conta que as boas novas do Homão de Nazaré, se fossem publicadas num jornal, hoje, não ficariam restritas à seção de religião, mas estariam encartadas em todas as demais seções, principalmente na de notícias internacionais?
O cristianismo militante somente se tornará comprometido com a Mensagem do Nazareno na efetividade de uma ação de quatro facetas: a que fala a favor dos pobres; a que enfatiza a sinceridade interior, dando um basta nos sepulcros caiados; o que alerta para o desmascaramento das mil e uma maldades tidas como invencíveis; e para um novo modo de conviviabilidade, num contexto planetário nunca auto-fágico.
Há muito tempo já se sabe: “é impossível percorrer a estrada da vida sem trocar um ou dois pneus furados”. Não esperemos que a vida se encaixe integralmente nas nossas especificações, pois pode acarretar múltiplas frustrações. No Eclesiastes, um conselho oportuníssimo para os tempos de Ano Novo: “Quando os dias forem bons, aproveita-os bem: mas quando forem ruins, reflita” (7,14). Que nos faz lembrar que a pior síntese da vida começa com três descrições: podia ter, era capaz de ter e devia ter.
Todo cuidado é pouco com os seres humanos medíocres. Na definição de José Ingenieros, um médico psiquiatra argentino já eternizado, autor de O Homem Medíocre, no Brasil editado pela Juruá, “o homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é por essência imitativo e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo as rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade. Assim como os seres inferiores herdam a “alma da espécie”, o medíocre adquire a “alma da sociedade”. Sua característica é a de imitar a quantos o rodeiam, pensar com a cabeça alheia e ser incapaz de formar ideais próprios”.
Que em 2008, saibamos desenvolver mais harmoniosamente os mundos que nos envolvem desde os primeiros tempos de nascidos: o mundo do saber, o mundo do ser, o mundo do sentir e o mundo do fazer. Bem assimilando um princípio muito salutar: quem usa a mente antes do coração é rei, diferentemente daquele que, tolamente, usa o coração antes da cabeça. Sem jamais menosprezar a lição contida no tornado apócrifo Evangelho de Tomé: “Bendito o leão comido pelo homem, porque o leão se torna homem, e maldito seja o homem comido pelo leão porque o homem se torna leão”.
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife-PE, 06.01.2008)

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