Nas minhas horas de folga, cumpridas as obrigações para com a restauração da saúde da minha mulher, aulas, consultoria e voluntariado, muito aprecio vagabundear os olhos por escritos não-técnicos, que muito me reoxigenizam a cada amanhecer. Vez por outra, deparo-me com textos sedutores, cativantes, que me prendem madrugada a dentro, prostrando a parte física, ainda que deixando o espírito mais que serelepe, antenadíssimo, capacidade ampliada de identificar os fingidos e apequenados do derredor. Uma eficaz terapia, sem qualquer dispêndio financeiro, nem hora marcada, nem roupa apertada, paletó e tal.
Mês passado, um fato inabitual, num consultório médico, me proporcionou curtir mais feliz um oportuno feriadão. Deparei-me, minutos antes do atendimento sempre atrasado, com um livro de bolso, edição portuguesa, contendo textos de intervenção social e cultural, em prosa, do poeta Fernando Pessoa. Provocado pelas primeiras páginas e saído do consultório, encomendei um exemplar na livraria mais próxima. E pude verificar como Fernando Pessoa sempre esteve léguas distanciado das torres de marfins, locais preferidos pelos intelectuais de então, habituados a contemplar, à distância, o espetáculo do mundo, mãos nunca sujas, fingidamente puritanas e moralistas, civis, militares e eclesiásticas.
Em Fernando Pessoa, com seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, a situação cultural portuguesa, a política dos partidos, a estagnação social, o nepotismo episcopal e o provincianismo figuram entre seus principais textos fustigantes, apesar do seu modo de ser recatado e tranqüilo, aparentemente divorciado dos buruçus cotidianos.
O poeta não receou arriscar seu nome em prol de causas antipáticas aos donos do poder e até mesmo à própria sociedade de então. Demonstrando coragem, coerência e muito humor, Pessoa desmistificou personalidades, hábitos e costumes, brandindo sua pena na defesa de uma ética libertadora, capaz de fazer corar o diocesano de lá, cândido por conivência ou conveniência nunca sincera.
Algumas das vergastadas do poeta mais parecem dirigidas à Nação Brasileira, tamanhas as suas semelhanças contextuais:
- “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”;
- “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”;
- “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”
Por isso, energizado pelo notabilíssimo poeta lusitano, recomendo às pessoas do meu relacionamento, pessoal e internético, nunca relegar um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homão de Nazaré:
“Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
Relembremos o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Perguntas e respostas que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, este desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança, vendo-o pastor por derradeiro.
PS. Em breve, livro sobre verso, vida e prosa de Fernando Pessoa, de autoria do jurista José Paulo Cavalcanti Filho, também da Academia Pernambucana de Letras. Uma das prodigiosas inteligências brasileiras.
Mês passado, um fato inabitual, num consultório médico, me proporcionou curtir mais feliz um oportuno feriadão. Deparei-me, minutos antes do atendimento sempre atrasado, com um livro de bolso, edição portuguesa, contendo textos de intervenção social e cultural, em prosa, do poeta Fernando Pessoa. Provocado pelas primeiras páginas e saído do consultório, encomendei um exemplar na livraria mais próxima. E pude verificar como Fernando Pessoa sempre esteve léguas distanciado das torres de marfins, locais preferidos pelos intelectuais de então, habituados a contemplar, à distância, o espetáculo do mundo, mãos nunca sujas, fingidamente puritanas e moralistas, civis, militares e eclesiásticas.
Em Fernando Pessoa, com seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, a situação cultural portuguesa, a política dos partidos, a estagnação social, o nepotismo episcopal e o provincianismo figuram entre seus principais textos fustigantes, apesar do seu modo de ser recatado e tranqüilo, aparentemente divorciado dos buruçus cotidianos.
O poeta não receou arriscar seu nome em prol de causas antipáticas aos donos do poder e até mesmo à própria sociedade de então. Demonstrando coragem, coerência e muito humor, Pessoa desmistificou personalidades, hábitos e costumes, brandindo sua pena na defesa de uma ética libertadora, capaz de fazer corar o diocesano de lá, cândido por conivência ou conveniência nunca sincera.
Algumas das vergastadas do poeta mais parecem dirigidas à Nação Brasileira, tamanhas as suas semelhanças contextuais:
- “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”;
- “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”;
- “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”
Por isso, energizado pelo notabilíssimo poeta lusitano, recomendo às pessoas do meu relacionamento, pessoal e internético, nunca relegar um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homão de Nazaré:
“Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
Relembremos o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Perguntas e respostas que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, este desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança, vendo-o pastor por derradeiro.
PS. Em breve, livro sobre verso, vida e prosa de Fernando Pessoa, de autoria do jurista José Paulo Cavalcanti Filho, também da Academia Pernambucana de Letras. Uma das prodigiosas inteligências brasileiras.

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