domingo, 23 de dezembro de 2007

Pessoanas

Nas minhas horas de folga, cumpridas as obrigações para com a restauração da saúde da minha mulher, aulas, consultoria e voluntariado, muito aprecio vagabundear os olhos por escritos não-técnicos, que muito me reoxigenizam a cada amanhecer. Vez por outra, deparo-me com textos sedutores, cativantes, que me prendem madrugada a dentro, prostrando a parte física, ainda que deixando o espírito mais que serelepe, antenadíssimo, capacidade ampliada de identificar os fingidos e apequenados do derredor. Uma eficaz terapia, sem qualquer dispêndio financeiro, nem hora marcada, nem roupa apertada, paletó e tal.
Mês passado, um fato inabitual, num consultório médico, me proporcionou curtir mais feliz um oportuno feriadão. Deparei-me, minutos antes do atendimento sempre atrasado, com um livro de bolso, edição portuguesa, contendo textos de intervenção social e cultural, em prosa, do poeta Fernando Pessoa. Provocado pelas primeiras páginas e saído do consultório, encomendei um exemplar na livraria mais próxima. E pude verificar como Fernando Pessoa sempre esteve léguas distanciado das torres de marfins, locais preferidos pelos intelectuais de então, habituados a contemplar, à distância, o espetáculo do mundo, mãos nunca sujas, fingidamente puritanas e moralistas, civis, militares e eclesiásticas.
Em Fernando Pessoa, com seus mais conhecidos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, a situação cultural portuguesa, a política dos partidos, a estagnação social, o nepotismo episcopal e o provincianismo figuram entre seus principais textos fustigantes, apesar do seu modo de ser recatado e tranqüilo, aparentemente divorciado dos buruçus cotidianos.
O poeta não receou arriscar seu nome em prol de causas antipáticas aos donos do poder e até mesmo à própria sociedade de então. Demonstrando coragem, coerência e muito humor, Pessoa desmistificou personalidades, hábitos e costumes, brandindo sua pena na defesa de uma ética libertadora, capaz de fazer corar o diocesano de lá, cândido por conivência ou conveniência nunca sincera.
Algumas das vergastadas do poeta mais parecem dirigidas à Nação Brasileira, tamanhas as suas semelhanças contextuais:
- “Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”;
- “O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela, em segui-la mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”;
- “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”

Por isso, energizado pelo notabilíssimo poeta lusitano, recomendo às pessoas do meu relacionamento, pessoal e internético, nunca relegar um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homão de Nazaré:
Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
Relembremos o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Perguntas e respostas que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, este desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança, vendo-o pastor por derradeiro.

PS. Em breve, livro sobre verso, vida e prosa de Fernando Pessoa, de autoria do jurista José Paulo Cavalcanti Filho, também da Academia Pernambucana de Letras. Uma das prodigiosas inteligências brasileiras.

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