sábado, 20 de outubro de 2007

Pedido de um Prêmio Pulitzer

Outro dia me deparei, num livro, com um pedido do próprio autor. Ele havia lido, na Internet, uma carta dirigida a um reverendo fundamentalista, desses que acreditam na leitura literal das Sagradas Escrituras. E fazia um apelo, o escritor Garry Wills, PhD em Línguas Clássicas pela Johns Hopkins University, Professor Emérito pela North-Western University, também Prêmio Pulitzer por Lincoln at Gettysburg, sobre história norte-americana, autor de O Que Jesus Quis Dizer, lançamento 2007 da Rocco Editora: quem soubesse algo sobre o autor da carta, que remetesse a identificação autor para seu endereço eletrônico.
Afinal, qual o maior interesse do autor de O Que Jesus Quis Dizer? Apenas parabenizar o remetente pelo conteúdo do recado, dado por ocasião da proibição de um bispo católico de San Diego de ministrar enterro cristão a um homossexual declarado. O conteúdo da mensagem internética parece caber na carapuça de todos aqueles que, vestidos de roupas macias de púrpura (Mc 16,19-31), imaginam-se integralmente puros, sem mácula alguma, de vidas pregressas intocáveis, só faltando a declaração de que provieram também de uma virgem.
A carta inicia-se por um agradecimento do seu autor pelos ensinamentos da Lei de Deus transmitidos por um religioso, inclusive o que lembra Lv 18,22. E encarece ao mesmo pregador alguns outros conselhos: como adquirir escravos de nações vizinhas, tanto homens como mulheres, vencendo Lv 25,44; como vender a filha como escrava, segundo a recomendação contida em Ex 21,7; como saborear um bom crustáceo, sem considerá-lo abominável, sem desobedecer a Lv 11,10; como me aproximar do altar do Senhor, mesmo possuindo uma visão deficiente, ou sendo corcunda, anão ou com um dos testículos em desacordo com a anatomia mais usual, sem atentar para Lv 21,20; como aparar as pontas da barba ou cortar o cabelo em volta das têmporas, ultrapassando a proibição expressa em Lv 19,27; e, finalmente, como poder jogar basebal usando luvas de couro de porco, se está vedado o seu uso em Lv 11,6-8. E a carta é concluída com um final de quase súplica: “Sei que o senhor estudou esses assuntos em profundidade e, portanto, possui um conhecimento considerável sobre essas questões e estou confiante que possa me ajudar. Obrigado mais uma vez por lembrar-nos que a palavra de Deus é eterna e imutável”.
A leitura do livro de Garry Wills deve ser feita levando-se em conta as causas das discordâncias apontadas por Alexandre de Afrodisia, um célebre comentarista de Aristóteles do final do século II, início do III, muito respeitado entre os gregos e os árabes. São três, atualizadíssimas: a primeira, o apego ao poder e a polêmica, que impossibilitam o polemista de menos emocionalmente apreender a verdade como ela é; a segunda, são as sutilezas acerca da controvérsia, dada sua profundidade e dificuldades múltiplas de compreensão; a terceira diz respeito à própria ignorância e capacidade limitada do querelante. O famoso Maimônides (1135-1204) - considerado por muitos como o maior filósofo judeus de todos os tempos, sendo chamado por São Tomás de Aquino de “Moisés, o Egípcio” -, no Guia dos Perplexos, parte primeira, aponta uma quarta causa: o costume e o estudo, posto que “as pessoas naturalmente gostam daquilo a que estão acostumadas e que as atrai”. Concluindo com maestria: “quanto menos atributos negativos uma pessoa admite, maior a limitação da sua percepção”, uma estonteante tapa de luva de pelica nos que se acham puros e imaculados, donos da verdade, sósias do Altíssimo.
Fico a imaginar de que lado ficariam algumas das atuais autoridades religiosas, inclusive os purpurados, se vivessem no tempo do Homão de Nazaré. Certamente macomunados com aqueles que o chamavam de impuro (Lc 11,38), que o acusavam de muita conversa com as rameiras do seu tempo (Lc 7,39), que o denunciavam por ser estimulador da imoralidade (Mc 2,16) e de viver como glutão e bêbado (Lc 7,34), postando-se como um cismático (Jo 8,48), um bastardo (Jo 8,41), agente do diabo ou o próprio diabo (Mc 3,22, Jo 7,20), entre outras leviandades. As punições para os que defendessem o Nazareno logo seriam aplicadas: pedido de desculpas públicas no papiro oficial da igreja local, licença de três meses para um melhor repensar, proibição de ensinar, ou silêncios obsequiosos remetidos por comunicações oficiais fleumáticas.
As igrejas de hoje, sob diversas estratégias, parecem querer esconder Jesus, através de um conservadorismo generalizado das traduções dos Evangelhos, denuncia Garry Wills, no seu O Que Jesus Quis Dizer. Um Jesus que anunciou que era Caminho, Verdade, Luz e Vida. Um Jesus leigo, sem diplomas, que combateu os sepulcros caiados. E que ainda se sente novamente crucificado quando observa religiosos molestando crianças, “pastores” de televisão, membros de religiões diferentes se devorando, perseguidores de homossexuais refletindo posturas nazi-fascistas.
Estou absolutamente convencido: ninguém arrostará o Jesus da fé. Aquele que nos ensinou que a religião mais verdadeira é aquela que advém do coração: solidária, fraterna, sem fazer distinção de espécie alguma, sempre atenta às súplicas dos mais necessitados e enfermos, seus Filhos prediletos.

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