Aluno secundarista, preparando-me para enfrentar as provas vestibulares, uma personalidade diferenciada já ocupava lugar proeminente em meu imaginário de cristão não vinculado às orientações recebidas de um pai devoto e de mãe atenta em acompanhar solidária o marido às celebrações dominicais. Eleito em outubro de 1958, o gorducho Ângelo Roncalli, com nome de João XXIII já anunciava, noventa dias depois de eleito, a convocação de um concílio essencialmente pastoral, guiando sua igreja para uma nova etapa, onde não se deveria mais buscar a manutenção da autoridade com as armas da repressão, “governando com o remédio da misericórdia em vez de severidade”. Anúncio que me entusiasmou bastante, muito embora de assuntos eclesiásticos eu de muito poucas letras entendesse.
Os tempos seguintes ampliaram minha admiração por aquele gorducho sorridente, que já tinha sido olhado de esguelha pelos superiores, que concluíram que ele não era muito prudente ao propor idéias inconcebíveis, como a que propunha a efetivação de casamentos mistos, quando lecionava sobre a vida e o pensamento dos primeiros patriarcas da igreja no Seminário Pontifical Laterano, em Roma. E que tinha sido punido com a função de copista de cartas, posteriormente sendo deslocado para a distante Bulgária, depois sendo “premiado” com funções na Turquia muçulmana, lá permanecendo por dez anos. Somente recebendo o chapéu vermelho de Pio XII, em 1953, que o nomeou para líder espiritual de Veneza.
O que mais me fascinava em João XXIII era sua capacidade de trabalhar em colaboração com não-católicos: na Turquia, ajudou inúmeros judeus, favorecendo a fuga deles da Alemanha hitlerista. Depois de encerrada a tragédia nazista, ele viu horrorizado um documentário que mostrava corpos de judeus empilhados em Buchenwald. E exclamou perante muitos: “Como isso pode acontecer? O corpo místico de Cristo!!”
Minha admiração por João XXIII foi gradativamente se ampliando a partir de gestos e atitudes que o consagraram como um papa muito amado. Apenas dois exemplos: suas visitas surpresas a orfanatos, prisões, escolas públicas, casas geriátricas; e quando erradicou a proibição de visitas à cúpula da Basílica de São Pedro quando ele estivesse caminhando no jardim superior. Argumento convincente: “Por que eles não deveriam olhar? Não estou fazendo nada de escandaloso”.
O papa João XXIII mostrou ao mundo inteiro que o Vaticano II não foi um concílio para combater heresias, mas uma ampla reunião onde se buscaria um novo modo, pós-moderno sem dúvida, de sem espraiar mundo afora a mensagem salvífica do Homão de Nazaré.
As forças conservadoras, comandadas pelo cardeal Alfredo Ottaviani, se encontravam mais acessas que nunca. Fato: por ocasião da reunião preparatória para a eleição dos componentes das dez comissões permanentes, sobre a mesa de cada um foram colocadas, para orientação, listas dos membros a serem eleitos. Mas aí, e em toda a História tem sempre um aí grandioso, um cardeal de 78 anos, cabelos honradamente brancos, levemente curvado e de nariz aquilino, levantou-se e disse alto e bom som: “Não iremos aceitar as listas de candidatos preparados para nós antes da abertura do Concílio. Por outro lado, não temos tempo para escolher nossos próprios candidatos, e requisitamos um adiamento para tomarmos nossas próprias decisões”. O cardeal Aquiles Lienart, arcebispo de Lille, norte da França, entrou para a História como um que não aceitou as matreirices da Cúria.
A História também registra que os conservadores não queriam a efetivação do Concílio, se referindo ao evento como “o desatino do papa”, pois iria revelar ao mundo as diferenças internas. E sabiam destilar bem seus venenos, a exemplo do apelido dado ao cardeal Jan Alfrink, o atlético líder da igreja na Holanda, por seus contatos fraternais com os irmãos cristãos não-papistas: “anti-romano”.
O resto da história, todo helderista conhece. E o Juracy Andrade, mais que ninguém, sabe tudo sobre desmonte eclesiástico.
Vou ficando por aqui. Segundo Luiz Gonzaga: “que Deus do céu nos ajude!!” E ao Pe. Edwaldo Gomes, meu irmão de caminhada, de modo todo especial.
Os tempos seguintes ampliaram minha admiração por aquele gorducho sorridente, que já tinha sido olhado de esguelha pelos superiores, que concluíram que ele não era muito prudente ao propor idéias inconcebíveis, como a que propunha a efetivação de casamentos mistos, quando lecionava sobre a vida e o pensamento dos primeiros patriarcas da igreja no Seminário Pontifical Laterano, em Roma. E que tinha sido punido com a função de copista de cartas, posteriormente sendo deslocado para a distante Bulgária, depois sendo “premiado” com funções na Turquia muçulmana, lá permanecendo por dez anos. Somente recebendo o chapéu vermelho de Pio XII, em 1953, que o nomeou para líder espiritual de Veneza.
O que mais me fascinava em João XXIII era sua capacidade de trabalhar em colaboração com não-católicos: na Turquia, ajudou inúmeros judeus, favorecendo a fuga deles da Alemanha hitlerista. Depois de encerrada a tragédia nazista, ele viu horrorizado um documentário que mostrava corpos de judeus empilhados em Buchenwald. E exclamou perante muitos: “Como isso pode acontecer? O corpo místico de Cristo!!”
Minha admiração por João XXIII foi gradativamente se ampliando a partir de gestos e atitudes que o consagraram como um papa muito amado. Apenas dois exemplos: suas visitas surpresas a orfanatos, prisões, escolas públicas, casas geriátricas; e quando erradicou a proibição de visitas à cúpula da Basílica de São Pedro quando ele estivesse caminhando no jardim superior. Argumento convincente: “Por que eles não deveriam olhar? Não estou fazendo nada de escandaloso”.
O papa João XXIII mostrou ao mundo inteiro que o Vaticano II não foi um concílio para combater heresias, mas uma ampla reunião onde se buscaria um novo modo, pós-moderno sem dúvida, de sem espraiar mundo afora a mensagem salvífica do Homão de Nazaré.
As forças conservadoras, comandadas pelo cardeal Alfredo Ottaviani, se encontravam mais acessas que nunca. Fato: por ocasião da reunião preparatória para a eleição dos componentes das dez comissões permanentes, sobre a mesa de cada um foram colocadas, para orientação, listas dos membros a serem eleitos. Mas aí, e em toda a História tem sempre um aí grandioso, um cardeal de 78 anos, cabelos honradamente brancos, levemente curvado e de nariz aquilino, levantou-se e disse alto e bom som: “Não iremos aceitar as listas de candidatos preparados para nós antes da abertura do Concílio. Por outro lado, não temos tempo para escolher nossos próprios candidatos, e requisitamos um adiamento para tomarmos nossas próprias decisões”. O cardeal Aquiles Lienart, arcebispo de Lille, norte da França, entrou para a História como um que não aceitou as matreirices da Cúria.
A História também registra que os conservadores não queriam a efetivação do Concílio, se referindo ao evento como “o desatino do papa”, pois iria revelar ao mundo as diferenças internas. E sabiam destilar bem seus venenos, a exemplo do apelido dado ao cardeal Jan Alfrink, o atlético líder da igreja na Holanda, por seus contatos fraternais com os irmãos cristãos não-papistas: “anti-romano”.
O resto da história, todo helderista conhece. E o Juracy Andrade, mais que ninguém, sabe tudo sobre desmonte eclesiástico.
Vou ficando por aqui. Segundo Luiz Gonzaga: “que Deus do céu nos ajude!!” E ao Pe. Edwaldo Gomes, meu irmão de caminhada, de modo todo especial.

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