quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Abraço Solidário

Envio fraternal abraço para o Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus Betesda, autor de um livro, recentemente lançado pela Editora Ultimato, intitulado Eu Creio, Mas Tenho Dúvidas. Reflexões que mais me aproximaram de Deus, possibilitando a ampliação da minha responsabilidade diante de fatos e feitos eclesiais, presbiterais, episcopais e leigos.
Um dia me entusiasmei com uma afirmação de Ivan Illich, o corajoso monsenhor de Cuernavaca, México: “jamais confundir salvação com igreja”. E continuo com a mesma convicção diante das posturas inerciais de algumas denominações, preocupadas com teologias enlatadas e discursos estéreis, como bem coloca o dedo na ferida o pastor Gondim, um nascido cearense, hoje paulista de ação pastoral.
Os posicionamentos do Ricardo Gondim merecem ser respeitados pelos que, não se considerando passivas ovelhas, sentem-se cabritos, atentos às mutações planetárias nos mais diversos setores das Ciências, Humanas inclusive. Não aceitando o determinismo dogmático da teologia, também não crê na predestinação. Não sendo fundamentalista, identifica na Bíblia textos como mitos, sentido filosófico, e outros como partes da cultura popular de Israel. Não considerando a Bíblia como conjuntos de livros psicografados, aceita-a plenamente como páginas inspiradas pelo Espírito Santo, redigidas de acordo com as percepções culturais, científicas e sociológicas de cada redator.
Enfrentando dissidências várias, a grande maioria delas ainda na fase chamada de transitividade ingênua pelo educador pernambucano Paulo Freire, o pastor está convencido de que “a favela não fazia parte das intenções criativas de Deus”, “toda miséria sendo um acinte, uma aberração”. E faz um alerta preventivo: “Não estou em crise, não ando depressivo, não venho tentando ajustar a Bíblia a alguma circunstância mal resolvida de minha alma. Pelo contrário, estou superentusiasmado com Deus”.
Diferenciando-se da mediocridade que parece tomar de assalto inúmeras igrejas cristãs brasileiras, o pastor Ricardo Gondim revela em seu livro uma respeitável bagagem de leituras reflexivas. Entre os autores por ele citados, um deles é o famoso Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, o rabino Jonathan Sacks é uma das maiores autoridades contemporâneas em moral, tendo lançado neste ano, pela Editora Sêfer, um texto muito aplaudido: Para Curar Um Mundo Fraturado – A Ética da Responsabilidade, um dos conceitos mais característicos e polêmicos do judaísmo de todos os tempos. O capítulo 10 é destinado ao nascimento da responsabilidade, onde o rabino Sacks faz uma reflexão oportuna sobre quatro histórias contidas no Gênesis: Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e o Dilúvio e a Torre de Babel.
A leitura do livro do pastor Ricardo Gondim engrandece o ser-cristão de qualquer um. Para identificar as mediocridades explicitadas nos últimos tempos, uma delas a de considerar herética a Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional lançada pela Editora Vida. Para assimilar com ares de pós-modernidade as pistas que indicam o nosso aprofundamento numa espiritualidade libertadora, uma delas a de ter “cuidado com líderes que se envaidecem com seus títulos e gostam de tratamento formais”, posto que Jesus jamais teve escritório com diplomas pendurados nas paredes, para admiração dos que nada entendem de enfeitados papéis assinados, vidros e molduras.
Para meu crescente entusiasmo, o pastor Ricardo Gondim cita também um outro famoso rabino, Abraham Joshua Heschel, eternizado em 1972, um dos mais famosos teólogos contemporâneos, um dos mais ativos defensores dos direitos civis nos Estados Unidos e da liberdade religiosa dos judeus na União Soviética.
O livro do rabino Heschel, de uma cristalina simplicidade, está repleto de reflexões bem dosadas de paixão e eloqüência, racionalidade e equilíbrio, leitura imperdível para todos aqueles que acreditam na Criação e no seu Criador. E logo no primeiro parágrafo do capítulo inicial de um dos seus mais famosos livros, Deus em Busca do Homem, Editora Arx, SP, 2006, uma declaração que reflete excepcionalmente bem o conteúdo do livro do pastor Gondim: “Costuma-se culpar a ciência secular e a filosofia anti-religiosa pelo eclipse da religião na sociedade moderna. Seria mais honesto culpar a religião por suas próprias derrotas. Ela decaiu não porque foi contestada, mas porque se tornou irrelevante, enfadonha, opressiva e insípida. Quando a fé é completamente substituída pelo credo, o culto pela disciplina, o amor pelo hábito, quando a crise de hoje é ignorada pelo esplendor do passado; quando a fé se torna um mero objeto herdado em vez de uma fonte de vida; quando a religião fala somente em nome da autoridade em vez da compaixão, sua mensagem se torna sem sentido”.
Reverencio o pastor Ricardo Gondim, por ter divulgado reflexões que alavancam novas evangelizações, que fortalecem a missão integral do ser humano, que refreia os hedonismos e nepotismos das mais variadas espécies, nos remetendo celeremente para as palavras de Moisés: “Amarás o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda sua vontade”. Que ditas com plena convicção, eis que se pode repetir o que fez a Míriam, a irmã de Arão, que pegou um pandeiro e fez um cortejo de alegria, cantando e dançando, sob as graças do Altíssimo.
Sou anglicano, helderista, transreligiosamente ecumênico, mariano e apaixonado pelo Homão de Nazaré. E não creio, como o pastor Gondim, na predestinação, concordando também que um culto legítimo necessita de racionalidade. E assino embaixo quando ele afirma que “todo legalista precisa de pessoas que nunca se percebem livres”.
Não gosto, como o pastor Gondim, da serenidade dos cemitérios, como ele já não tendo tempo disponível para lidar com mediocridades, posto que as poucas jabuticabas do meu cesto existencial se tornam mais diminutas a cada amanhecer. E, como ele, não desejo perder minha alma em nome da religião.
Assino também algumas afirmações do Ricardo Gondim: “não me aquietei na espera da morte”, “perdi a inveja dos acadêmicos com seus raciocínios herméticos”, “não me flagelo quando tropeço”, “mantenho-me teimoso com os meus sonhos”, “insisto em não me conformar com a trágica sorte dos miseráveis”, “ainda acredito em ideais”, “não pretendo desistir”, “não caibo dentro dos estreitos caminhos por onde viajam as hienas que por natureza riem, desprezando seus semelhantes”, “não gosto de gente que se acha dona dos triunfos alheios”, e “não me considero capaz ou legítimo representante de coisa alguma”.
O livro do pastor Ricardo Gondim é cutucador por derradeiro. Não serve para os abestados da vida, tampouco para os que proclamam a todo instante “Deus quis” e “Se Deus quiser”, desatentos para a grandiosa “Sob as Graças do Senhor”. Nem para os que não se percebem como colaboradores de Deus, segundo a sabedoria paulina.Encerro este meu aplauso solidário ao pastor Ricardo Gondim, utilizando as suas próprias palavras, que irrestritamente endosso: “Tenho muitos nãos porque desejo, um dia, concretizar meu grande sim: são eles que formam meu canto e minha prosa”.

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