quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Os 7 Q's da Cidadania Cristã

Antes que um primeiro questionamento aflore à mente dos que buscam entender o título deste texto – do tipo Quais as intenções do autor? – torna-se indispensável explicitar em poucas linhas o objetivo maior destas páginas: contribuir para que filhas e filhos do Senhor da História, de um Nazareno que é parte integrada e indissociável da Santíssima Trindade, sejam mais eficazes nos seus comportamentos pessoais cidadanizadores, também evangelizadores por missão, ainda que plenamente conscientes das suas perenes incompletudes.
Para início de conversa, sejam relembradas três afirmações do filósofo Ludwig Wittgenstein – 1889-1951 -, “uma personalidade dominadora, intelecto de primeira linha, que transbordava autoconfiança e conseguia encantar os pássaros de uma árvore”, segundo biografia sucinta escrita por Paul Strathern
[1], em finais do século passado. Balizam elas, sem muitos arrodeios metafóricos, as intenções deste pequeno texto, elaborado sem qualquer furor academicista. São elas:
a. “O talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas esta fonte, se não for usada de uma maneira correta, perde seu valor”.
b. “Uma boa parábola refresca o entendimento”.
c. “É difícil indicar um caminho para um míope”.
[2]
Os ditos de Wittgenstein fazem recordar o diálogo de Felipe com o Etíope, contido nos Atos dos Apóstolos (8,30-31). Pergunta e resposta que encerram grandezas de ambos os lados, o primeiro buscando ampliar o enxergar do segundo, o último desejando orientar-se com alguém em quem pudesse depositar confiança.
O diálogo, aparentemente simples, retrata, hoje, algumas ânsias de melhor compreender os tempos de agora, que se agigantam a cada dia, onde um cientismo - atitude segundo a qual os métodos científicos devem ser estendidos, sem exceção, a todos os domínios da vida humana, conforme definição contida no Aurélio Dicionário – desnuda-se diante da pobreza da racionalidade experimental, da sua lógica positiva e da sua razão instrumental, que em vão menosprezam a dimensão simbólica e estética do ser humano
[3]. Um diálogo abrangente, apesar de sucinto:
- O senhor entende o que está lendo?
- Como posso entender, se alguém não me explica?
O etíope reconhecia que “uma fé cega pode ter conseqüências tão devastadoras como um amor cego”
[4], um pensar pioneiramente apreendido, pouco tempo depois da crucifixão do Filho de Deus, pelo primeiro autor do Novo Testamento, Paulo de Tarso. Uma apreensão ratificada por Santo Agostinho, ao proclamar que a profissão de fé de um convertido em absoluto não exige o abandono do pensamento crítico dele. Muito pelo contrário, compete ao novo converso aprofundar sua criticidade, favorecendo iniciativas nunca nostálgicas, que ampliem a sua cidadania cristã e a do seu derredor. Tornando-o mais “responsável perante aquilo que vem antes de si mas também perante o que está por vir, e portanto também perante a si mesmo”.[5]
Lamentavelmente, uma estonteante maioria dos denominados evangelizadores XXI, ainda não perceberam que, sem os eflúvios das usinas de idéias múltiplas, gerados a partir de uma consistente emulação colegiada, os atuais momentos de turbulência não serão eficazmente superados. E que somente serão ultrapassados mediante uma evangelização efetivamente capaz de alavancar comunidades, fortalecendo os propósitos da construção do Reino de Deus entre nós.
Tamanha desatenção se verifica num momento deveras impróprio: nunca, nos mais diferenciados segmentos comunitários do planeta, a procura por um saber mais ampliado, menos reducionista, foi tão acentuada, embora múltiplas religiosidades sejam conseqüências de catequeses inexpressivas, de muito pouco conteúdo evangelizador. A leitura de livros, jornais e boletins especializados, o comparecimento a congressos e seminários, além da Internet, em muito favoreceram, nos tempos últimos, a disseminação de informações oriundas de fontes as mais diferenciadas, findando-se o monopólio de um saber destinado exclusivamente para ”os de cima”, onde leigo era considerado todo aquele que se encontrava integralmente alheio a determinados assuntos, principalmente os religiosos.
Nos últimos vinte anos, uma gigantesca lacuna instalou-se na militância cristã dos países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, como o Brasil. Preocupados quase exclusivamente com a caridade para com os despossuídos, ela distanciou-se das fontes referenciais que deveriam oxigenar continuamente seu embornal cognitivo evangelizador. Por isso, tornou-se ela ainda mais perplexa diante das velozes mutações histórico-sociais ocorridas a partir dos anos oitenta. E por desconhecer as razões estruturais de tais alterações, desatrelou-se das aspirações comunitárias significativas, todas sobrevivenciais, mergulhando num pieguismo bolorento, amplamente anestésico, descivilizatório por natureza.
No caso brasileiro, por exemplo, as igrejas também desaperceberam a constatação de Ilse Scherer-Warren: “o autoritarismo na cultura política brasileira não é apenas o resultado do agir das elites políticas, mas tem também suas raízes nas formas como as classes dominadas se submetem e reproduzem em suas próprias práticas cotidianas este autoritarismo”.
[6] A crescente violência social, além dos desníveis socioeconômicos amplamente estudados, também é decorrência de um autoritarismo ampliado em todas as classes sociais.
Muitos cristãos ainda estão, nos umbrais de um século XXI turbulento e desafiador, sem encontrar um "jeito" para caminhar de acordo com os ensinamentos d'ELE. Não sabem conviver com os mais necessitados, nem tampouco buscam enxergar o mundo pelos olhos dos mais frágeis. São incapazes de disciplinar-se numa vida mais austera, sem os mundanismos cavilosos que consolidam os "obstáculos epistemológicos" tão bem identificados por Gaston Bachelard, um especializado em filosofia das ciências, também um quase psicanalista
[7].
Num contexto planetário eivado de uma desacreditação generalizada, em momento algum a cidadania cristã deve olvidar as Sagradas Escrituras: "Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens.” (Mt 5,13) Em outras palavras, competirá aos possuidores de uma crítica militância cristã perceber-se luminária situada acima das mediocridades do dia-a-dia, para que todos possam ver suas iniciativas, assim glorificando o Pai que está nos céus.
As quatro pequenas historias, abaixo, merecem reflexão de alguns instantes, nunca individual. Elas retratam circunstâncias diferenciadas, onde são confrontados pensares de ontem e consciências de hoje.
a. Um pequeno agricultor adquiriu, depois de um esforço concentrado de vários anos, um terreno cheio de mato e pedregulho. Com um esforço incomum transformou o terreno árido em uma bela lavoura. Um dia, recebendo a visita de um compadre, este exclamou:
- Amigo, como Deus foi bom procê. Você e Deus produziram uma bela lavoura!!
- Verdade, respondeu o agricultor. – Mas você precisava ver o tamanho do matagal no tempo em que Deus cuidava sozinho desse terreno!!
b. Num matar-saudades acompanhado de muita água-de-coco, um professor narrava a contratação dos serviços de uma profissional do lar. Entrevistando uma delas e solicitando as suas pretensões salariais, ouviu singular resposta:
- Depende. Se for para trabalhar com penso é mais caro. Se for para trabalhar sem penso é mais barato.
Diante do atordoamento causado, a explicação convincente:
- Se o senhor quiser que eu pense como administrar o dia-a-dia da sua casa é um preço. Mas se o senhor quiser apenas que eu cumpra as suas ordens, o preço será menor .
c. Um endinheirado nordestino, travestido de empreendedor XXI, resolveu observar o milagre japonês no seu endereço de origem, no outro lado do mundo. Comprou passagem ida-e-volta, conseguiu a companhia de um alguém que dominava inglês e partiu lampeiro que só para conhecer o berço do sol. Após os desembaraços alfandegários, anunciou seu maior desejo: conhecer, no Japão, um Mestre Zen, desses tidos e havidos como um danado-de-bom na sabedoria. E um Mestre Zen, posto à sua inteira disposição, foi uma cortesia nipônica de primeira hora. Apresentado ao Mestre Zen, as inevitáveis perguntas abobadas aconteceram, as argumentações lógicas menosprezadas. De repente, o Mestre Zen, já com o estômago bem embrulhado, resolveu tomar a iniciativa:
- Você sabe muitas coisas, não sabe?.
- Percebe-se, Mestre ?.
Sorriso sibilino, todo já análise feita, o Mestre retornou:
- Estou disposto a lhe testar, o amigo concorda?
Peito estufado, sem pestanejar, externou um - Como não, caríssimo Mestre enxeridíssimo e sem qualquer reticência. E com um acréscimo atrevido: - Pode perguntar o que quiser.
O diálogo foi mais ou menos assim, como me contaram:
- O amigo sabe onde está neste momento?
- Claro que sei, Mestre. Estamos num lindo bosque.
- E onde está este bosque?
- Ora, caro Mestre, no Japão.
- E onde está o Japão?
- No nosso planeta Terra, Mestre, com certeza.
- E onde está o nosso planeta?
- Ora, Mestre... No Universo!
- E onde está o Universo, caríssimo brasileiro?
O embatucamento foi pra ninguém botar defeito. O suor principiava a correr, sovaco abaixo. Mas a resposta não tardou:
- Na verdade, caríssimo Mestre, eu realmente não sei.
A ponderação severa, a penúltima, então aconteceu:
- Veja só, o amigo nem sabe onde está e acha que já sabe muito. O amigo ainda tem muito que aprender.
Danado de raiva, o "notável" rebateu sem mais as conveniências de um bom relacionamento:
- Qualé, Mestre, até mesmo o senhor não sabe a resposta correta, né não?
O xeque-mate até hoje não se desinstalou da cuca do endinheirado:
- Pois esta é a nossa diferença, amigo caríssimo. Minha ignorância é baseada em meu entendimento, enquanto o seu entendimento é baseado em sua ignorância. Sou um tolo bem humorado, você é um sério idiota.
d. Numa excursão ecológica, um jovem universitário subiu ao alto de uma árvore frondosa, nele encontrando um ninho de águia. Retirando de lá um ovo, alojou-o em casa sob uma galinha de quintal, chocadora de uma meia dúzia de outros tantos. O resultado foi o nascimento de um filhote de águia no meio dos pintainhos. Bem criada, a aguiazinha não sabia sequer que não integrava a categoria. Contentou-se com a sua sina, muito embora, vez por outra, ânsias interiores provocassem o seu interior, como que a dizer “devo ser algo mais que uma simples galinha.” A falsa galinha jamais tomou qualquer outra iniciativa, até observar, numa bela manhã, uma águia sobrevoando o galinheiro em missão caçadora. E a convicção aflorou imediatamente: - Não sou galinha. Não nasci pra viver em galinheiro. Meu destino é o céu, ainda que não seja de brigadeiro. E alçou vôo, deslumbrada, imaginando-se muito águia, embora conservando toda a formação interior. Lamentavelmente, tornou-se águia sem jamais ter superado uma mentalidade de galinha.
As historinhas acima apontam, nos pórticos do presente século, para uma crescente constatação entre os cristãos descidadanizados: o desprezo que eles nutrem por si mesmos, posto que emocionalmente são dependentes. E como todo dependente, são dotados de múltiplos preconceitos. São falsos moralistas, se posicionando com uma insegurança que mutila a criatividade, sempre se amesquinhando com não rara freqüência. E muitos ainda são fundamentalistas, imaginando que sua doutrina é a única verdadeira, todas as demais sendo falsas. Basta descobri-los um pouco para se perceber seus impulsos secundários, suas invejas, suas descabidas ambições, seus instintos perversos, a lei de Gerson
[8] sendo por eles a única aplicada, todo o restante não sendo merecedor de mínima atenção. Suas posturas mecanicistas de encarar a vida os tornam defensores de regimes autoritários, onde o trabalho, o amor, a solidariedade e o conhecimento não são forças determinantes da existência humana, tampouco essenciais na consolidação de uma paz universal.
Às vésperas do atual milênio, Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, costumava advertir acerca de um urgente repensar das dimensões religiosas da vida cotidiana, a vida em comunidade também necessitando de novas práticas, as críticas e autocríticas sendo estimuladas através de diálogos abertos, francos e corajosos, sem os salamaleques das pessoas vaidosas que pensam estar entendendo tudo.
O João Silvino da Conceição, um amigão de longa data, guarda com muito carinho, num calhamaço de papel pautado, alguns dos escritos do Dom Hélder Câmara. Transcritos abaixo, comprovam a contemporaneidade do pensar daquele que foi um dos maiores evangelizadores mundiais do século passado, uma personalidade radicalmente ecumênica, libertadora sob os mais diferenciadas vertentes:
- "Cristo deu à Hierarquia uma missão específica de evangelização. Mas, de modo algum, afastou a comunidade cristã da grande aventura do desenvolvimento";
- "Quanto à escravidão vinda dos homens vamos precisar da coragem de reconhecer e proclamar que, depois de três séculos de escravizar milhões de Africanos, libertamos os Africanos, mas passamos a escravizar nossos próprios conterrâneos, não só filhos de Deus como nós, mas filhos do nosso próprio País, carne de nossa carne, sangue de nosso sangue";
- "O Cristianismo até bem pouco, quase até hoje, alimentou nas Massas latino-americanas um sentimento passivo, fatalista e mágico";
- "A Igreja de Cristo não precisa de nossas piedosas mentiras. Ela aprendeu, com seu Fundador e Mestre, que só a verdade nos libertará";
- "É urgente evitar que os jovens se convençam de que a Igreja é mestra em preparar grandes textos e sonoras conclusões, sem a coragem de levá-las à prática";
- "Por que, no eixo Norte-Sul, o Norte é sempre mais rico e o Sul sempre mais pobre?”;
- "Precisamos de um Brasil que valorize a colaboração indispensável da Mulher e que estimule a expansão de um autêntico feminismo, em que a Mulher estimule a expansão de valores especificamente femininos, a somar a valores especificamente masculinos";
- "O Tempo urge. Não temos o direito de ser insensatos e imprudentes.”
Numa Igreja como a Anglicana, por exemplo, que abriga diversas correntes de pensamento, sem que sejam afetados seus pilares doutrinais básicos, é dever de honestidade reconhecer que alguns posicionamentos adotados estão quilômetros distanciados dos cotidianos vivenciados em outros contextos sócio-culturais, gerando "esquizofrenias" as mais disparatadas, que somente favorecem a disseminação de uma hipocrisia social dicotomizada entre uma rigidez anti-humana e uma permissividade que desrespeita o próprio corpo.
Cristãos das mais diferenciadas denominações confundem tradição, modernismo e pós-modernismo, modernidade e modernosidade, ora alimentando bloqueios e perplexidades, ora reforçando "soluções de facilidade", via caminhos inadequados.
É chegada a hora de uma contínua reavaliação da caminhada evangelizadora de cada cidadão em sua Igreja. Sem nunca subordinar o positivo ao negativo. Percebendo que a sexualidade é parte indissociável de uma dimensão humana permanente e irrecusável. Aceitando sem fingimento que o celibato compulsório de algumas denominações cristãs ceifa sadias intercomplementaridades entre serviço e desejo, ampliando insuportáveis conflitos, ensejando inseguranças pastorais que muito prejudicam a própria construção do Reino de Deus.
Relembre-se, aqui, o poeta português Fernando Pessoa
[9], quando dos seus posicionamentos mais lúcidos, apropriadas cutucações nos despertados incompletamente: "O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando não o somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, quando sonhamos que sonhamos.”
Diz o Eclesiástico que “para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu” (Ec 3,1). E diz ainda que há vários tempos, como o de plantar, o de construir, o de procurar, o de guardar, o de costurar, o de lutar e o de viver em paz. Para sabermos em quais tempos devemos atuar, para bem entendermos as múltiplas intervenções de Deus na Criação, através do seu Filho Amado, é necessário balizar-se segundo a explicação dada pelo apóstolo Paulo acerca da evolução do ser humano, diante das aparências passageiras do mundo (1Cor 7,31), posto que “quando alguém julga ter alcançado o saber, é porque ainda não sabe onde está o verdadeiro conhecimento” (1Cor 8,2). E ele próprio, na sua primeira carta aos coríntios, reconhecia que “quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino” (1Cor 13,11), deixando, tornado adulto, as coisas próprias de criança.
Entretanto, para se alcançar uma cidadania cristã que seja suficientemente forte para alavancar a própria fé na direção de um ver-julgar-e-agir capaz de bem cumprir a missão que nos foi por Ele destinada, não se deve perder de vista, mais uma vez, a recomendação de Paulo: “se a sua linguagem não se exprime em palavras inteligíveis, como se poderá compreender o que vocês dizem? Estarão falando ao vento” (1Cor 14,9)
Alguns Q’s, desenvolvidos equilibradamente por cada um, são de muita utilidade na vida do cidadão cristão XXI. São eles: o QI – Quociente de Inteligência, o QE – o Quociente de Emocionalidade, o QC – Quociente de Criticidade, o QA – o Quociente de Adversidade; o QV – Quociente de Visibilidade; o QR – Quociente de Resistência e o QP – Quociente de Politização.
O apóstolo Paulo soube muito apropriadamente utilizar os sete Q’s acima na divulgação da mensagem do Filho de Deus, os seus ensinamentos se baseando em quatro grandes vertentes: Jesus é descendente de Davi (Rom 1, 3: 2Tim 2,8); encarna o poder de Deus, explicitado através dos seus milagres (2Cor 13,4); as perseguições e morte ratificam a tese do servo que padece, anunciada pelos profetas; e sua ressurreição é prova definitiva de sua divindade.
As citações paulinas abaixo, todas retiradas das suas epístolas, retratam os diferenciados Q’s por ele utilizados. A cada leitor competirá classificar cada citação num dos quocientes acima listados. Ei-las:
- “Nós judeus, somos por acaso superiores? De jeito nenhum!” (Rom 3,9)
- “Dei leite para vocês beberem, não alimento sólido, pois vocês não o podiam suportar. Nem mesmo agora o podem, pois ainda se deixam levar por instintos egoístas” (1Cor 3,2s)
- “O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder” (1Cor 4,20)
- “Rezarei com o meu espírito, mas rezarei com a minha inteligência” (1Cor 14,15)
- “Quem semeia com mesquinhez, com mesquinhez há de colher; quem semeia com generosidade, com generosidade há de colher” (2Cor 9,6)
- “Não me julgo nem um pouco inferior a esses superapóstolos. Eu posso não ser um orador eloqüente; contudo tenho conhecimento” (2Cor 11,5s)
- “Se alguém pensa que é importante, quando de fato não o é, está enganando a si mesmo” (Gl, 6,3)
- “Examinem tudo e fiquem com o que é bom” (1Ts, 5,21)
- “Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo: diferentes serviços, mas o Senhor é o mesmo: diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1Cor 12,4)
- “É aos maduros na fé que falamos de uma sabedoria que não foi dada por este mundo, nem pelas autoridades passageiras deste mundo” (2Cor 2,6)
O que mais se admira em Paulo é a sua altivez nunca orgulhosa, seu desvitimismo, seu descoitadismo, sua máscula paixão pela causa do Cristo, apesar de não O ter conhecido em vida. Fato que, entretanto, nunca intimidou sua auto-classificação de apóstolo superior, quando “Deus me separou desde o ventre materno, e me chamou por sua graça” (Gal 1,15), somente tendo conhecido pessoalmente Pedro três anos depois das primeiras pregações. Ele mesmo confessa que perseguiu os convertidos em Cristo, mas também não esconde que trabalhou mais que todos eles (1Cor 15,10), correspondendo ao ideário d’Aquele que, “depois de todos, foi visto também por mim, um nascido fora do tempo” (1Cor 15,8).
A partir de alguns paradigmas, pode-se implementar e/ou acelerar uma cidadania cristã que agregue valores sociais e espirituais através de uma convivialidade comunitária que permita a construção de cenários condizentes com a dignidade humana. Eis alguns deles, a título de fraternal provocação:
a. Comece devagarzinho, mas comece, enfatizando a descoberta de novos caminhos, as eternas lamentações sendo apenas um dos menores motes para os desafios;
b. Lembre-se sempre que o valor maior está no envolvimento pessoal, no relacionamento e na influência para fazer as coisas acontecerem;
c. Jamais se deixe influenciar pela sensação de ser apenas uma agulha no palheiro;
d. Uma cabeça crítica é bem melhor que uma mente saudosista;
e. Experimente dar o primeiro passo, nem que seja para visitar uma escola pública, ou promover um encontro com as famílias dos empregados, ou participar das discussões de algum seminário, direta ou indiretamente relacionado com o tema Evangelização;
f. Evite “gastar todo o seu gás”, pesquisando como fazer uma idéia germinal tornar-se concreta, cansando-se antes do primeiro passo;
g. Observe com mais atenção o que está acontecendo no seu derredor social, descobrindo as potencialidades dele.
h. E nunca se olvide da oração de Jabez: “Abençoa-me e dá-me muitas iniciativas e empreendimentos. Fica comigo e livra-me de qualquer coisa que possa de causar dor”. (1Cr 4,10)
Orar é agir e atuar na vida, eis um dos motes utilizados pelos nunca acomodados. Para os que desejam que Deus aja em nós e por nosso intermédio. Para os que buscam modificar-se para poder mudar as coisas dos seus derredores. Para os que desejam manter-se integralmente vivos num contexto cada vez mais vazio de uma espiritualidade libertadora.
Não se deve apreciar as formas caducas de oração, muito embora radicalmente se defenda o direito de cada um manifestar-se como bem quiser e entender. Entretanto, algumas “orações” afastam os mais jovens, desestimulam os mais franzinos na fé, esvaziam missões e enriquecem alguns “sabidos”, mestríssimos em manter os mais débeis em cativeiro sentimental de quarto sem porta.
Para todos, entretanto, deve ser recordada a oração feita por um Prêmio Nobel da Paz 1964, Martin Luther King, seguramente um texto muito aplaudido, uma postura cidadã eivada de inquebrantável compromisso para com a Criação:
“Hoje, nesta noite do mundo e na esperança da Boa Nova, afirmo com audácia minha fé no futuro da humanidade. Nego-me a concordar com a opinião daqueles que acreditam que o homem é, até certo ponto, cativo da noite sem estrelas, do racismo e da guerra, e que a radiante aurora da paz e da fraternidade jamais será uma realidade. Creio firmemente que, mesmo entre os obuses que atiram e canhões que ressoam, permanece a esperança de um radiante amanhecer. Atrevo-me a acreditar que um dia todos os habitantes da Terra poderão ter três refeições por dia para a vida do seu corpo, educação e cultura para o aprimoramento de seu espírito, igualdade e liberdade para a vida de seu coração. Creio também que um dia toda a humanidade reconhecerá em Deus a fonte do seu amor.”
Mais recentemente, oportuno alerta foi feito por Juan Luís Segundo, jesuíta uruguaio, um dos mais importantes teólogos latinoamericanos, que bem alicerça a tese da necessidade de uma continuada reforma em todos os passos da cidadania cristã, pessoal e eclesial: “Em teologia, continua-se atualmente, em grande escala, vivendo, falando e pensando, como na Idade Média. Estranho edifício na cidade moderna! Se ainda fosse para clareza e força da mensagem cristã!... O mesmo magistério nos diz que, dessa maneira, a verdade perde vida e plenitude. E não se lhe pode pedir que ilumine e humanize os problemas de hoje”.
[10]
Para consolidação do caminhar evangelizador de cada um, abaixo se reproduz um aforismo escrito pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián[11], em 1647, como que pondo fé na cidadania cristã futura de todos, cada um sendo autor e ator em um Reino que já se instalou entre nós, desde a ressurreição do Homem de Nazaré:
“Ninguém nasce perfeito. Para tornar-se um Ser Humano o mais completo possível, profissional e pessoalmente, cultive o discernimento com maturidade, possua gosto elevado e inteligência aguçada para todas as coisas. Estude muito por meio de muitos, sempre fazendo do conhecimento seu melhor companheiro. Nunca abra a porta para o menor dos males, posto que os demais estão por detrás dele. Não se esquecendo de que até as lebres puxam as barbas de um leão morto, nunca brinque com a sua coragem. Só o verdadeiramente superior vê em dobro. Dizer não é tão importante quanto saber gostar de todas as boas coisas. A compreensão de um amigo vale mais que apenas a boa vontade de muitos. Amigos sensatos afastam as mágoas, os tolos acumulam. Os que mais se orgulham de suas proezas são os que menos têm motivos para tanto. Contente-se em fazer, deixando os comentários para os demais. Um espírito frouxo prejudica muito mais que um corpo fraco. Seja antes de ter”.
A cidadania cristã deve, a todo instante, saber separar o joio do trigo da Religião professada por cada um. Como ressalta destemidamente Hans Küng, “a crença em Deus foi e é decerto freqüentemente autoritária, tirânica, reacionária. Pode produzir medo, imaturidade, limitação, intolerância, injustiça e abstinência sexual. Pode legitimar e inspirar imoralidade, males e guerras no seio de um povo ou entre povos. Porém, nesta última década a crença em Deus mostrou-se de novo progressivamente libertadora, orientada para o futuro e filantrópica. A fé em Deus pode propagar confiança na vida, maturidade, generosidade, tolerância, solidariedade, engagement criativo e social e pode fomentar a renovação espiritual, reformas sociais e a paz mundial”
[12]
Ao cristão cidadanizado caberá implementar, sob as Graças d’ELE, sua própria caminhada em comunidade, competindo às Igrejas favorecer a disseminação de uma evangelização libertadora sem escapismos nem nostalgias, buscando destemida e incansavelmente proclamar, para ninguém mais esquecer, a verdade que para sempre liberta. (Jo 8,32)
[1] Wittgenstein em 90 minutos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997.
[2] Extraídas do livro Cultura e Valor, Lisboa, Edições 70, 1996.
[3] Vale a pena uma leitura esclarecedora de Introdução à Teologia, Perfil, Enfoques, Teoria, de João Batista Libânio e Afonso Murad, São Paulo, Loyola, 2001.
[4] Hans Kung, Credo, Lisboa, Instituto Piaget, 1997.
[5] Reflexão de Jacques Derrida, a propósito das atribuições/atribulações de um herdeiro. IN: De que amanhã ... diálogo, Jacques Derrida & Elisabeth Roudinesco, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.
[6] Redes de movimentos sociais, São Paulo, Loyola, 1993. IN: Introdução à Teologia, Perfil, Enfoques, Teoria, de João Batista Libânio e Afonso Murad, São Paulo, Loyola, 2001
[7] Francês (1884-1962), foi considerado um dos docentes mais consagrados da Sorbonne. Segundo ele, “a idéia deve ter mais que uma prova de existência, deve ter um destino espiritual”.
[8] Aquela que proclamava que “tem-se que levar vantagem em tudo”, pano de fundo de propaganda de uma marca de cigarro
[9] Considerado, hoje, um dos maiores gênios da língua portuguesa.
[10] Que Mundo, Que Homem? Que Deus? Aproximações entre ciência, filosofia e teologia. São Paulo, Paulinas, 1995, p. 7
[11] Jesuíta, nascido em 1601, em Belmonte, Aragão, região nordeste de Espanha.
[12] Hans Küng, op. cit, p.23

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