domingo, 14 de janeiro de 2007

Um Missionário de Talento

Num dezembro 9 de 1990, um sacerdote ortodoxo era assassinado a golpes de machado na cabeça na periferia de Moscou. Na mesma data em que se celebra a liturgia da decapitação de João Batista, profeta que pagou caro por não fazer concessões aos poderosos da sua época.
Filhos de pais judeus sem fé, Aleksandr Mien desde criança foi atraído pelos estudos religiosos, sendo ordenado após conclusão do seu curso superior de Biologia. Seu ministério sacerdotal atraía um número cada vez mais elevado de intelectuais moscovitas. Atores, poetas, escritores, artistas, músicos, filósofos, misturavam-se a velhinhos e lavradores para ouvirem o padre Mien falar de Deus.
Um dos pensadores moscovitas contemporâneos mais destacados, Serguei Averintsev, definiu o padre Mien como “o missionário da tribo dos intelectuais”, dada sua fraternidade com todas as Igrejas cristãs, sua gigantesca estima e amor pelo judaísmo e sua vastíssima erudição. Demonstrada em seus muitos trabalhos, entre os quais uma história das religiões, em cinco volumes e um aplaudido mundialmente dicionário bíblico.
Além disso, o padre Aleksandr Mien foi o primeiro sacerdote ortodoxo a ministrar curso de religião numa escola do Estado, após instalado o processo de transformações políticas, econômicas e sociais comandado por Mikhail Gorbatchov, então secretário-geral do Partido Comunista da época. Muito embora, mesmo antes da perestróika, ele já exercesse atividades pastorais às escondidas, sempre a valorizar os talentos dos participantes.
Mas o texto de Mien que mais se popularizou, circulando clandestinamente bem antes das aberturas políticas, foi Jesus, Mestre de Nazaré: a história que desafiou 2.000 anos, no Brasil publicado pela Cidade Nova, já na décima quinta edição em 2004. Usando estilo romanceado e recorrendo às mais recentes descobertas da ciência bíblica, o padre Mien escreveu um livro para todos, “para quem nada sabe sobre Jesus, para quem o conhece e nele crê, e também para quem possui bons conhecimentos bíblicos e teológicos”. Um milhão de exemplares vendidos após um ano de lançado na capital russa!
O padre Mien percebia, com uma lucidez notável, que Jesus foi parte integrada ao pensamento judaico da sua época, tendo vivido, ensinado e morrido no madeiro como judeu. O rabino Byron L. Sherwin, do Conselho Consultivo do Instituto para a Compreensão entre Judeus e Cristãos, é taxativo: “não é possível entender plenamente a vida e os ensinamentos de Jesus fora do contexto judaico de que precedem”. E foi mais incisivo quando escreveu “tanto para cristãos como para judeus, compreender Jesus como judeu pode constituir o fundamento da remoção de barreiras entre cristãos e judeus, bem como configurar-se como o fundamento de um diálogo fraterno”.
Com mentalidade sempre contemporânea, padre Mien reconhece que “em sua pregação, Jesus se reportava às formas tradicionais da poesia bíblica. Suas palavras freqüentemente soavam como uma recitação solene, trazendo à mente os hinos dos antigos profetas. ... As parábolas eram conhecidas em Israel desde a Antiguidade, mas Jesus fez delas o meio por excelência de transmissão da sua doutrina. Ele não se dirigia só ao intelecto de quem o ouvia, mas queria tocar todo o ser do homem. Traçando quadros conhecidos da natureza e da vida cotidiana”.
Um provérbio iídiche dá resposta plena aos majoritários contextos sociais século 21: “Muitos se queixam de sua aparência, mas ninguém se queixa do seu cérebro”. Traduzindo em miúdos: inúmeros não sabem pensar corretamente, posto que os atuais condicionamentos induzem a uma permissividade que extrapola o limites de uma convivialidade sadia. Ou, vendo pelo outro lado da moeda, muitos pensam tanto sobre quase nada, que terminam tornando-se ignorantes em quase tudo.
O talentoso Oscar Wilde dizia que só os medíocres se conhecem. Será que estamos adequadamente apetrechados para enfrentá-los?

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