quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Madalena, Pedro e Paulo

Encontrei o João Silvino da Conceição na introdução (posse) de Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, novo bispo da Diocese Anglicana do Recife, considerado um dos mais talentosos biblistas brasileiros.
Também entusiasmado com a chegada do bispo, seu conhecido desde os tempos do ITER – Instituto de Teologia do Recife, uma escola de lideranças missionárias destruída pelos de enxergância nulificante, o Silvino se fazia acompanhar do Maruilson, major do Exército da Salvação, inteligência privilegiada a serviço da evangelização de jovens e adultos.
De uma pasta surrada, exalando os últimos suspiros de utilidade, o João mostra sua mais recente reflexão. Folha de papel almaço preenchida por caligrafia troncha, explicitada através de uma pena porosa de meia idade.
O título do “ensaio” do Conceição despertou atenções: Madalena, Pedro e Paulo. Refletia leituras feitas pelo Silvino nos últimos tempos, sintetizadas em folhas numeradas, anotações buscando esmiuçar eventos de mais de dois mil anos, sempre carentes de maior luminosidade analítica. Reproduzo um trecho, correção ortográfica autorizada:
“Acredito que lideranças dos primeiros tempos da era atual, após o martírio do Rabino Yeshua, não viam com bons olhos a supremacia exercida por Maria Madalena, declarada certa feita Apóstolo dos Apóstolos. Tal ressentimento se respaldava em preconceitos da época, cujos ecos ressoam até os tempos atuais. Também impressiona o fato de Paulo nunca ter mencionado o ministério de Jesus, seus ensinamentos e viagens, parecendo até que o ex-torturador se arvorava de “ligado diretamente”, característica auto-proclamada em seus escritos. Talvez uma maneira de compensar as desconfianças nutridas por Pedro e a família do Nazareno, inclusive Madalena, significativamente ausente nas suas cartas e nos Atos dos Apóstolos.
Contraditoriamente, Paulo cita inúmeras outras mulheres, provavelmente incapazes de ofuscar a sua liderança e sem qualquer aproximação afetiva com o mestre galileu. Pérsida, Trifena, Trifosa, Febe, Priscila, Júnia e tantas outras integrantes da comunidade paulina de fé não conviveram intensamente com o filho de Maria e José.
Madalena, independentemente de qualquer aproximação íntima com o Ressuscitado, não deve ter ficado ausente da Última Ceia, encontro onde participaram discípulos e apóstolos, homens e mulheres, hoje retratado com apenas a presença dos doze, além do Mestre. Sem qualquer crédito concedido para a equipe de apoio, os que prepararam a Santa Ceia, ainda que permanecidos do outro lado do salão.
Por inveja, incompetência, enxergância troncha ou idiotia machista, as mulheres foram sendo gradativamente eclipsadas das atividades eclesiásticas hierarquicamente superiores. A ousadia machista foi tamanha que até na primeira epístola de Paulo a Timóteo, hoje classificada como não-paulina, encontra-se uma aberração descabida: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio” (2,11-12). Uma contradição com as práticas delas em algumas comunidades, quando ensinavam, pregavam e profetizavam. Os próprios evangelhos contemplam oito listas de mulheres que serviram a Jesus das mais variadas maneiras. Em todas elas, com a exceção de uma, Madalena é citada em primeiro lugar. Por exemplo, em Mateus 27,61 e 28,11 encontramos a mesma citação, uma bem próxima da outra: ‘Maria Madalena e a outra Maria ...’.
A cada dia me convenço mais da necessidade da mulher rejeitar a postura de objeto, tornando-se mais apta para o bom combate, intuição aguçada a serviço de tarefas evangelizadoras e missões libertadoras, para que todos possam conhecer a Verdade que liberta (Jo 8,32), independentemente das preferências sexuais de cada um”.
Esse João Silvino da Conceição é um arretado!! Assino embaixo!!
(Publicado no Jornal do Commercio, Recife, Pernambuco, 24.01.2007)

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