quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Anotações para um começo de ano

O apóstolo Paulo, em sua Primeira Carta aos Coríntios (1Co 1,27), parece estar escrevendo nos dias que antecederam o final de 2006, ao anunciar que a sabedoria de Deus é eletiva. Diz ele: “Deus escolheu o que no mundo é loucura para envergonhar os sábios, e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte.”
Os acontecimentos que estão aturdindo a sociedade brasileira nos últimos tempos não seriam mais algumas das sabedorias divinas? Para alertar os abiscoitados de sempre, aqueles que ainda não perceberam que “a verdadeira conduta em conformidade com a vontade de Deus não é àquela que conduz à ortodoxia, mas àquela que nos leva à ortopráxis”?
Carecemos de informações credíveis para efetivamente poder separar o joio do trigo, favorecendo o sal da terra que necessita ser purificado em prol das imensas desigualdades mundiais, que muito nos envergonham às vésperas de cada Natal. Quando, aqui, os Noéis, portando imensos sacos apenas para uns bem poucos, ignoram solenemente nossa humilhante classificação de Nação que é uma das vice-campeãs do mundo em pior distribuição de renda. E que paga, desde o Governo Fernando Collor, os juros mais elevados do planeta, transferindo do Orçamento Público para os mais afortunados grupos financeiros, somente em 2005, a bagatela de 150 bilhões de reais, DEZ VEZES MAIS que o destinado para minorar a fome de milhões de famílias brasileiras, irmãs e irmãos nossos, também filhas e filhos da Criação.
A análise incomodatícia é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Universidade de Campinas: “Não vamos nos enganar: os últimos 25 anos, primeiro de instabilidade e depois de estagnação, deixaram, sim, uma herança maldita. O País foi submetido aos humores do rentismo, ou seja, à defesa assustada da riqueza já existente e líquida, imobilizado pela aversão aos azares e incertezas do investimento e da criação de riqueza nova”. E conclui ele, que continua um competente e aplaudido homem de esquerda, apesar dos seus mais de sessenta anos: “é o alto preço que o presente agrilhoado ao passado cobra do futuro”.
A ânsia por políticas sociais mais criativas se respalda nos noticiários das publicações sérias. Por exemplo, segundo o IBGE, “o mercado de trabalho brasileiro piorou de 1995 a 2005. A taxa de desemprego subiu de 6,1% para 9,3% e houve queda de 12,7% no rendimento médio dos trabalhadores nesses dez anos. Para os jovens entre 18 e 24 anos, o nível de desemprego atingiu 17,8%, em 2005. Jovens que têm, em média, 8,7 anos de estudo.”
Entre os caminhos crísticos e os caminhos não-crísticos insere-se o discernimento das lideranças evangelizadoras. Segundo o teólogo J. Sobrino (O seguimento de Jesus como discernimento cristão, IN: Jesus na América Latina, seu significado para a fé e a cristologia, SP, Loyola/Vozes, 1985), “entendemos por discernimento cristão a busca concreta da vontade de Deus, não somente para ser captada, mas também para ser realizada. Entendemos o discernimento, portanto, não só pontualmente, mas também como um processo no qual a vontade de Deus realizada verifica também a vontade de Deus pensada”.
Caberá aos militantes cristãos, cada um nas suas denominações religiosas e de braços fraternalmente dados com os seguidores das demais religiões do mundo, utilizar uma metodologia do discernimento criativa essencialmente libertadora, centrada em três grandes eixos: a elaboração de conceitos, ensejando compreender adequadamente a situação real dos fatos históricos e sociais; a análise crítica de conhecimentos e práticas, assimilando os ventos soprados pelo Espírito para sobrepujar a visão do senso comum e as visões científicas que contrariam a vontade de Deus; e a direção das condutas éticas, ministeriais e missionárias, integrando-as na formatação concreta de ações que propiciem a ampliação da dignidade humana em todas as nações e povos. Ações que possibilitem o engajamento mais profundo de todos nas questões de um tempo, o brasileiro em nosso caso particular, na efetivação de boas obras através da edificação de uma mística não exclusivamente emocional, vacina que não se deixará engabelar, tampouco escravizar, pelos conhecimentos falazes e vãos, segundo advertência contida na primeira carta paulina aos colossenses. Sem puritanismos cavilosos nem moralismos que apenas desrespeitam a constatação divina de que tudo havia ficado muito bom (Gn 1,31).
Num contexto de muita bandalheira, como o brasileiro de agora recordemos 1Samuel 3. Um jovem auxiliar de cego que é chamado para revigorar a fé e a esperança do seu povo, denunciando a corrução, inclusive as eclesiásticas, inúmeras vezes disfarçadas sob mantos oportunistas, aparentemente evangelizadores.
Saibamos colegiadamente, numa fraternidade que nunca erradique a criticidade que emana do livre-arbítrio, consolidar nossa missão terrestre: a de fazer o povo enxergar novos modos de viver em grupo, cada um transformando e sendo transformado, numa convivialidade fraterna, radicalmente libertadora, ninguém sendo enganado por ninguém.
Se cada um cumprir sem destemor a missão que Deus nos confiou, aceleraremos a chegada de um Novo Tempo, ainda que muito depois dos nossos retornos ao Pai. Quando isso acontecer, de onde estivermos, ouviremos os ecos do trecho final de um dos mais vibrantes pronunciamentos do pastor Martin Luther King (Eu tive um sonho): “quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e em todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro: ''Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.''
No Espírito de Deus que sempre liberta, FELIZ 2007 para todos!!!!!

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