sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Um Nordestino do Mundo

Um não-acomodado cutucador de consciências, eis uma definição completa para Dom Hélder Câmara, que soube ser pastor-irmão na Arquidiocese de Olinda e Recife, nunca se distanciando da definição proclamada pelo papa João Paulo II, na Ilha Joana Bezerra, no Recife: irmão dos pobres.
Radicalmente ecumênico, participou do Concílio Vaticano II oferecendo notáveis exemplos de dedicação desassombrada, hoje refletidos nas cartas enviadas de Roma, recentemente tornadas públicas, em edição primorosa o seu volume primeiro. No Concílio, o Dom sonhou com uma Comunhão Cristã onde as denominações se veriam como parcelas, percebendo-se sempre em reforma, a binoculizar futuros, atraindo jovens talentos para o enfrentamento dos individualismos pernósticos, dos autoritarismos disfarçados, dos assistencialismos populistas e dos afoitismos desnecessários porque ainda não de todo convincentes.
O ponto mais consistente do viver de Dom Hélder consistia na sua intensa solidariedade para com os desassistidos do mundo. E o testemunho da Irmã Agostinha, uma das suas admiradoras, é suficiente: “Como poucas pessoas no mundo, Dom Hélder acreditava na força dos pequenos. Na força da união dos pequenos, que há de transformar o mundo, transformando a esperança redentora em realidade de justiça
Suas meditações escritas retratam sua preocupação com os amanhãs mundiais: “As árvores que jamais perdem o viço, que são perenemente verdes, olham, com uma ponta de inveja, as árvores que se desnudam de folhas e lembram esqueletos ... Quando a primavera irrompe, só quem foi despojado vibra com o milagre da ressurreição.”... “Das barreiras a romper a que mais custa e a que mais importa é, sem dúvida, a da mediocridade.” ... “Quando sentires o primeiro sinal inconfundível de morte próxima, não te fies em ti ... Agarra-te com a Graça. Aviva a crença na vida eterna. Não peças um segundo a mais. Fecha os olhos e pula no abismo de misericórdia da compreensão divina.”
Suas múltiplas utopias evangelizadoras, todas elas vivenciadas sob as pegadas do Homão de Nazaré, continuam sendo incorporadas ao ideário existencial de milhões, inclusive não-cristãos. Como helderistas, nunca helderetes, os pobres saberão divulgar efetivamente as suas mensagens, para uma inserção consciente de todos nos planos de Deus. Para erradicar, através da radicalidade dos consequentes, os sinais visíveis de um novo barbarismo, produto primeiro das estupidificantes ampliações econômico-sociais e financeiras entre os que têm e os que nada possuem.
Os conscientes do mundo saberão transmitir aos mais jovens, os versinhos imorredouros do muito amado Dom Hélder Câmara, o Peregrino da Utopia:
"Que importa que ao chegar eu nem pareça pássaro.
Que importa que ao chegar eu venha me arrebentando,
Caindo aos pedaços,
Sem aprumo e sem beleza.
Fundamental é cumprir a missão
E cumpri-la até o fim
".

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