sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Reflexões Cidadãs

Qual deveria ser o papel primordial de um cidadanizador, aquele que deseja um mundo mais dignificante, a conflitividade ensejando ultrapassagens periódicas, as posturas desumanizadoras sendo abominadas por gregos e troianos? A tarefa de repassar reflexões e iniciativas que elevem a compostura da Humanidade pode ser uma resposta. Através de variados procedimentos, qualquer um pode contribuir para o aprimoramento civilizatório. Imaginemos alguns:
- "Não podemos fugir à evidência de que a sobrevivência humana depende do rumo de nossa civilização, primeira a dotar-se dos meios de auto-destruição. Que possamos encarar esse desafio sem nos cegarmos, é indicação de que ainda não fomos privados dos meios de sobrevivência. Mas não podemos desconhecer que é imensa a responsabilidade dos homens chamados a tomar certas decisões políticas no futuro. E somente a cidadania consciente da universalidade dos valores que unem os homens livres pode garantir a justeza das decisões políticas". (Celso Furtado ).
- "A velha divisão de direita e esquerda acabou se assemelhando mais a duas seitas puritanas, uma lamentosamente conservadora, a outra posando de revolucionária mas usando a lamentação acadêmica como maneira de fugir ao comprometimento no mundo real". (Robert Hughes, crítico de artes australiano)
- "A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo sempre suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder". (Harold Bloom)
- "As pessoas querem respostas imediatas para as suas aflições . É por isso que as seitas estão crescendo enquanto as religiões tradicionais estão perdendo fiéis. O fenômeno de crer num líder capaz de nos ensinar a remover os obstáculos para os nossos objetivos pessoais não é novo, mas se reforça nos momentos de crise". (Esdras Guerreiro, USP)
- “No Brasil de hoje há poucos homens de esquerda, porém muitos esquerdeiros. Estes vivem da gesticulação revolucionária e de ficções verbais”. (Guerreiros Ramos)
Poderíamos obter, por exemplo, os Dez Mandamentos de um desenvolvimento econômico irmão siamês de um desenvolvimento social:
1. Participamos de um único cosmo, cada um sendo reflexo dele, nele também refletindo esperanças, conquistas e humilhações;
2. Os acidentes da vida obrigam os seres humanos a adotar costumes que os levam a esquecer a parte imortal deles próprios;
3. Quem diz "eu prometo", sem ter base para cumprir a promessa, é um mentiroso;
4. Se aprendemos o que significa viver com livros, somos forçados a torná-los parte da nossa vida;
5. Política significa o governo do ser humano e isso só pode ser feito em posições de poder legítimo;
6. Se a democracia não pode tolerar a presença de altos padrões de aprendizagem, então a própria democracia se torna questionável;
7. Cultura não deve ser usada para superar preocupações instintivas com o país, colocando em seu lugar uma lealdade falsa e alimentando uma perigosa falta de sensibilidade para com a política real;
8. Quem só possuir visão "econômica" não poderá, de forma consistente, acreditar na dignidade do ser humano ou no status especial da arte e da ciência;
9. Quando a luz dos grandes textos estiver para sempre obscurecida pelas chamas ardentes da interpretação fantasiosa, nossa janela para o mundo estará irremediavelmente fechada;
10. Todos os talentos não passam de recursos para a felicidade de todos.
A melhor forma de treinar é jogar. Nariz empinado, peito erguido e uma vontade gota-serena de atravessar o Rubicão. Descobrindo novas crenças, complementando-se uns com os outros, assumindo um fazer com gosto, apesar das pedras e cotoveladas. Sempre seguindo adiante, repetindo alto e bom som a frase preferida daquela solteirona, inaugurada na adolescência e de motor muitas vezes reajustado: "Eu sou um continente. Vibro com todas as coisas".
PS. Um 2007 mais solidário com a Cidadania Brasileira, meus sinceros votos.

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