quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Para Não Entornar o Caldo

Vez por outra, ultimamente com mais freqüência, tenho ouvido um ditado muito antigo, ainda dotado de notável contemporaneidade: “em casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Os últimos níveis de desemprego, o exército dos que ainda não conseguiram a primeira colocação na vida e a imensa maioria dos nunca incluídos no mercado de trabalho, desencantam meio mundo e muito envergonham os cidadanizados.
Não me canso de repetir, talvez até quixotescamente: “quem semeia ventos colhe tempestades”. Torna-se necessário desanestesiar o quanto antes a sociedade civil brasileira, ultimamente enebriada com um plano de estabilidade que deveria ser entendido como ponto de partida, jamais de chegada, essencialmente meio para se atingir um nível de maior dignidade para todos os segmentos sociais brasileiros, mormente os menos favorecidos.
Denuncia-se a ausência de uma finalidade humana nas políticas de planejamento que perambulam, vez por outra, pelos noticiários jornalísticos e televisivos, somente fala, jamais ação concreta. Todo o Brasil está a reclamar, pelos seus segmentos mais conscientes, por propostas e alternativas viáveis. E os do Nordeste, cansados de remendos e trapalhadas, clamam por um programa de desenvolvimento de bom calibre, que efetivamente faça integrar o todo regional no todo maior, brasileiro.
Todo consenso desprepara para opções e os conflitos são equacionados por um toma-lá-dá-cá descaradamente espúrio, explícito mais que bunda de índio ainda não-civilizado. Castra a criatividade cívica, aniquila a mais autêntica das solidariedades, a que faz recuperar cegos, coxos e paralíticos, reduzindo tudo a esmolismos grotescos, praticados com vistas lançadas para os resultados das urnas, em outubro próximo.
O educador Paulo Freire, um pernambucano de reconhecida notoriedade no seu campo profissional, costuma dizer que todo oprimido nutre um profundo desprezo por ele próprio, posto que emocionalmente é um dependente, satisfazendo-se com qualquer mil-réis, um ôi-querido ou um telegrama-padrão, desses que são passados pelos sabidos às vésperas de mais um aniversário dos lesos.
Tenho colecionado algumas frases, ditas por beatos e santonas que semanalmente estão nos templos sagrados, olhos farisaicamente marejados diante das advertências evangélicas: “O mundo sempre teve pobre”... “Dos pobres Deus sabe cuidar”... “Quem nasce pra capim, nunca vai chegar a rosa” ... “É dando que se recebe é coisa para maricões”... “Cada um tem a sua história”... “Ninguém muda o que está traçado”. E por aí vai, com armas e bagagens de forte conteúdo asinário.
Eu com meus botões, fico às vezes a imaginar como seríamos hoje, se não possuíssemos uma imensa capacidade de curtir Carnaval, São João, São Pedro, Dia dos Namorados, Pais, Mães, Sogra, pra não falar dos finais de semana praieiros, forrozeiros e roqueiros, repletos de muito seio, suor e cerveja...

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