quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Para Lideranças Tímidas

Outro dia, num livro de um diácono permanente - Técnicas de Planejamento Pastoral, Gianfranco Orfano, Vozes, 2004 – deparei-me com uma historieta bastante oportuna, de grande valia para os que, ainda imaginando que hábito faz o monge, gostariam de ampliar sua capacidade de liderar pessoas ou instituições.
A historieta é mais ou menos a seguinte:
Um homem se encontrava perdido no deserto, morrendo de sede. Quase se arrastando chegou a uma cabana velha abandonada. Nos fundos da construção, um bomba toda enferrujada. Com ajuda da manivela, bombeou-a sem parar, nada acontecendo. Todo desapontado, notou uma garrafa situada no canto esquerdo da peça. Nela, um bilhete: “Você precisa primeiro preparar a bomba, derramando sobre o bocal o conteúdo desta garrafa. Depois faça o favor de enchê-la antes de partir, para favorecer o próximo viajante.”
O sedento se viu num dilema atroz: beberia a água da garrafa para sobreviver ou despejaria seu conteúdo na bomba? E se a bomba não funcionasse?
Meio desconfiando, despejou todo o conteúdo da garrafa no gargalo da bomba e começou a bombear. Chiando sem fim, a bomba expeliu um fiozinho d’água, instantes depois jorrando água cristalina em grandes quantidades.
Ao sair, o homem deixou um acréscimo no bilhete: “Creia-me, funciona. Você precisa despejar a água toda antes de poder obtê-la de volta”.
A lição que fica: planejar é ter coragem de aceitar desafios!
Todo líder de mesmo, que tem a consciência plena das suas responsabilidades, desenvolve suas atividades profissionais sob três questões dialeticamente desafiadoras: o que quer alcançar, a que distância se encontra aquilo que se quer alcançar e o que fazer concretamente (em tal prazo) para diminuir progressivamente essa distância.
De uma coisa os líderes devem sempre levar na mais alta consideração: as ações apenas eficientes em nada contribuirão para a transformação das estruturas. As ações necessitam ser eficazes, efetivamente transformadoras. Nunca deixando de sobressair dois primorosos mandamentos gerenciais: 1. Quanto menos recursos existentes, mais as ações necessitam ser planejadas; 2. Os autoritários, os “donos da verdade” e os acomodados não querem nem saber de planejamento.
Tem líder que detesta a conflitividade, buscando sempre a prática da cooptação, imaginando que todo mundo tem preço. Não percebe, porque se imagina acima do bem e do mal, que conflito não é algo sempre negativo, não percebendo que ele somente será negativo quando não se sabe lidar com ele. E não percebe que, em inúmeros casos, os conflitos atuam como sintomas da necessidade de urgentes mudanças e reconversões.
Um dia, anos passados, um economista escreveu: Para inúmeros, que seja melhorado o bom, descobrindo-se a essência das missões individuais e coletivas. Que a argila impulsione um caminhar de propósitos de passos largos, correndo-se o risco de fazer coisas inéditas, mesmo recapturadas de fatos passados, até ridicularizados. Amanhã, imaginar-se daqui a quinze anos será um exercício prazeroso para os amantes da Eternidade. A emergir sentimentos ainda ocultos, espiritualidades incompletas, choros contidos e texturas descoradas por desintegrações múltiplas. Rompida as barreiras, que se aborde com a serenidade que resta as razões mais recônditas dos propósitos fingidos. Reconhecendo que as verdadeiras urgências são cada vez mais raras, os erros de previsão avolumando-se na ordem do dia, as exceções desmarcadas porque finalmente dispensáveis.
Como seria salutar se os líderes de todos os naipes – civis, militares e religiosos – lessem refletidamente sobre o que, um dia, escreveu o muito notável Fernando Pessoa, o poeta lusitano hoje reconhecido mundialmente: “O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos, e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema - o cargo que exerce, a posição social, a fortuna que tem....”
Todo líder deve discernir sobre tudo e todos, ficando sempre com o que é bom, tal e qual já nos advertia o lúcido Paulo de Tarso, o incansável bandeirante dos gentios. (1Ts 5,21)

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